Relatório Focus: as últimas previsões para a economia brasileira
Projeções para o Brasil*
(Unidades: descritas na tabela)
Fonte: Banco Central do Brasil / Relatório Focus (04/09/2026). *Mediana. Elaboração: AE/CDL POA.
O principal destaque do cenário internacional envolveu a divulgação de termômetros do mercado de trabalho americano. De acordo com o payroll de agosto, o saldo entre admitidos e desligados com carteira assinada totalizou 162 mil vagas, muito acima do esperado (55 mil). Além disso, as revisões de junho e julho adicionaram outros 55 mil postos. As aberturas disponíveis mostraram disseminação da criação entre serviços (86 mil), indústria (41 mil) e governo (35 mil). A exceção ficou por conta de informação (-23 mil). Por sua vez, a taxa de desocupação seguiu em 4,1%, valor bastante próximo ao nível de equilíbrio, ou seja, aquele que iguala a oferta e a demanda por mão de obra (4,2%), segundo os diretores do Fed. Ademais, a variação dos salários no acumulado dos últimos 12 meses moveu-se de +3,2% para +3,1%. Apesar de superar as expectativas (+3,0%), a estatística é a menor desde maio de 2021, sinalizando o abrandamento do repasse dos rendimentos para a inflação.
Contudo, as manifestações de dirigentes influentes dentro do Banco Central dos EUA atenuaram a importância do payroll para a decisão de política monetária do dia 16, ressaltando o papel da leitura de preços (CPI) de agosto. Christopher Waller, por exemplo, afirmou que votaria pela manutenção da taxa básica de juros caso a pressão sobre o indicador arrefecesse. Nesse sentido, a estimativa do Fed de Cleveland aponta para a sustentação do índice cheio em 3,4% no acumulado dos últimos 12 meses e de leve recuo do núcleo (recorte sem alimentos e energia) na referida métrica, de 2,5% para 2,4%. De toda forma, as negociações dos investidores atribuem probabilidade majoritária (60,2%) ao aumento de 0,25 ponto percentual dos juros. Um dos grandes desafios para a conservação do poder de compra das moedas no âmbito global diz respeito ao encarecimento do barril de petróleo, de modo que a cotação do tipo Brent voltou a ultrapassar US$ 100.
No Brasil, a agenda de dados abrangeu o PIB no segundo trimestre de 2026. Houve expansão de +0,5% contra o período imediatamente anterior, na série com ajuste sazonal, enquanto o consenso entre os especialistas acusava +0,4%. Os setores não cíclicos, como a agropecuária e a extração mineral, exibiram crescimento significativo. Em contrapartida, diversos ramos mais sensíveis aos movimentos de alta e de baixa da economia apresentaram desempenho ruim, incluindo a indústria de transformação, o comércio e outras atividades de serviços. Pela ótica da procura, o consumo das famílias caiu, consolidando a alternância entre perdas e ganhos desde o término de 2024. Já o resultado da formação bruta de capital fixo foi insuficiente para ampliar a taxa de investimento como proporção do PIB em comparação com o intervalo correspondente de 2025. Os números reforçam a perspectiva de avanço do PIB entre +1,9% e +2,0%.
Por fim, o parque fabril em julho registrou acréscimo de +0,2% em relação a junho, conforme o IBGE. De um lado, a transformação subiu +0,5%, em razão do incremento de 13 das 25 categorias, ao passo que a extração mineral encolheu 1,0%. No acumulado dos sete primeiros meses do ano, a manufatura galgou 1,1% ante a mesma janela de 2025. O segmento permanece com dificuldades associadas à taxa Selic em patamares elevados e às incertezas do ponto de vista interno e externo.
Avaliação do PIB do Brasil no segundo trimestre de 2026
Conforme o IBGE, o PIB aumentou +0,5% no segundo trimestre de 2026 em relação ao intervalo imediatamente anterior, após o ajuste sazonal. Portanto, a leitura superou levemente o consenso entre as expectativas dos agentes sondados pela Reuters (+0,4%), renovando o nível máximo da série.
De acordo com as aberturas disponíveis, os dados exibiram heterogeneidade expressiva. De um lado, os setores menos sensíveis aos ciclos da economia subiram notavelmente acima da média, como a agropecuária (+2,8%) e a extração mineral (+3,4%). No que se refere ao primeiro, destaque para as condições climáticas favoráveis e para os ganhos de produtividade associados à soja (carro-chefe da agricultura) e ao café. Já no que tange ao segundo, o recorte de petróleo e gás reagiu ao impulso da guerra no Irã sobre os preços do barril. A dinâmica benigna, contudo, não é pontual: desde o início de 2022, o acréscimo totaliza 35,5%.
Por sua vez, os segmentos mais cíclicos apresentaram comportamento consistente com o cenário de desaceleração, incluindo a indústria de transformação (-0,4%), o comércio e outras atividades dos serviços (ambos com variação nula). Nesse sentido, vale ressaltar o impacto exercido pelo alto custo do crédito. A despeito do processo de redução da Taxa Selic deflagrado em março, o movimento, além de pequeno em magnitude, pouco afetou o PIB por causa da defasagem inerente ao funcionamento da política monetária.
Outros ramos fugiram à “regra” supracitada, como informação e comunicação (+2,1%) e transportes, armazenagem e correio (+1,1%). O primeiro mostra incremento praticamente ininterrupto desde o pós-pandemia, graças à busca por tecnologia como alternativa para manter a capacidade de concorrência das empresas em um mundo amplamente competitivo.
Sob o prisma da demanda, as despesas das famílias caíram 0,4%. A janela ficou marcada pelas pressões inflacionárias decorrentes do conflito no Oriente Médio. Ademais, parcela relevante das medidas de incentivo à procura do governo federal concentrou-se no primeiro trimestre. Também cabe enfatizar que a situação financeira dos consumidores permaneceu delicada, com a inadimplência e o comprometimento da renda muito elevados. Da mesma forma, apesar da sustentação do desemprego nas mínimas históricas, indicadores como a massa real de salários e a geração de postos com carteira assinada começam a emitir sinais de desaquecimento.
Não obstante a majoração da formação bruta de capital fixo (investimentos), a taxa como proporção do PIB atingiu 16,1%: abaixo da registrada no período correspondente de 2025 (16,6%) e bastante aquém dos cerca de 20% que seriam necessários para que a expansão do Produto alcance aproximadamente 3% ao ano. O ambiente, é bem verdade, continua desafiador, diante das incertezas com as eleições e com o quadro fiscal, somadas aos rumos conturbados da geopolítica.
Por fim, as vendas externas decaíram 0,8%, enquanto as compras internacionais avançaram 1,8%. Parte do resultado das importações possivelmente esteja atrelada ao término da chamada “Taxas das Blusinhas” desde 13 de maio.
PIB do Brasil
(Var. %)
Fonte: IBGE. *Com ajustamento sazonal. | Elaboração: AE/CDL POA.
Se considerarmos as métricas mais longas, como o acumulado dos últimos quatro trimestres, houve nova perda de tração.
PIB do Brasil
(Variação % acumulada em quatro trimestres)
Fonte: IBGE. | Elaboração: AE/CDL POA.
Efeito carregamento: a herança estatística — simulação para o PIB de 2026 obtida mediante a conservação, até dezembro, do patamar constatado no 2º trimestre de 2026 — é de +1,8%.
Perspectivas para 2026: o prognóstico para o ano como um todo é de 2,0%. Por conseguinte, o ritmo de crescimento do segundo semestre tende a ser lento.
Análise da PNAD e do Novo CAGED – julho de 2026
PNAD – Brasil:
• De acordo com o IBGE, a taxa de desocupação recuou na transição do trimestre móvel encerrado em junho para julho de 2026, de 5,4% para 5,3%, em linha com o consenso entre as estimativas dos analistas sondados pelo Broadcast+;
• Esse é o menor patamar para o respectivo período de toda a série histórica, iniciada em 2012;
• Houve queda de 0,3 ponto percentual no confronto com o mesmo intervalo de 2025;
• Por sua vez, a massa de salários, que vinha desacelerando de forma expressiva, passou de +3,6% para +4,1% na variação interanual;
• Contudo, o número é o segundo menor desde o trimestre móvel com término em maio de 2022 (+2,8%);
• A taxa de informalidade aumentou de 37,4% para 37,5%;
• Embora significativamente altos (são 38,8 milhões sem carteira assinada), os valores estão entre os mais baixos desde o começo do levantamento, no fim de 2015;
Novo CAGED – Brasil
• A diferença entre recrutamentos e desligamentos formais totalizou 58.568 em julho;
• Dado ficou aquém da mediana dos prognósticos dos especialistas consultados pela Reuters (112.000 mil);
• Ademais, é o pior resultado para o mês desde que a metodologia foi atualizada, em 2020, lembrando que a mínima até então remetia a 2020, no auge da pandemia, com 123.297;
• Razão entre os salários de admissão e o de demissão avançou de 95,9% para 96,6%, ou seja, perto do recorde;
• Cabe ressaltar que o vencimento na destituição do cargo ultrapassa o da contratação por causa do ganho de produtividade atrelado à experiência no exercício do ofício. Logo, quanto maior a disputa por mão de obra escassa, maior tende a ser o indicador, que mede a disposição das firmas em ajustar a remuneração para preencher vagas em aberto;
Avaliação: as estatísticas seguem corroborando a resiliência do mercado de trabalho. No entanto, existem determinados sinais de perda de tração, ainda que graduais, consistentes com o cenário macroeconômico bastante desafiador.
Novo CAGED – Rio Grande do Sul:
• A destruição líquida alcançou -903 postos no RS em julho de 2026, superando apenas o Espírito Santo (-2.605) no ranking por Unidades da Federação;
• É importante destacar a sazonalidade desfavorável na janela, graças às movimentações realizadas pela indústria de transformação;
• Entretanto, o desempenho em perspectiva é ruim:
• O crescimento em 2024 ocorreu em cima de uma base atípica deprimida de maio e de junho, em função das enchentes;
Saldo do CAGED – Rio Grande do Sul
(em unidades)
Fonte: Ministério do Trabalho.| Elaboração: AE/CDL POA.
• Na média móvel em 12 meses, o desaquecimento é claro;
• São 742 postos por mês até julho, de tal sorte que é a mínima desde março de 2021;
Saldo do CAGED – Total da economia – Rio Grande do Sul
(média móvel dos últimos 12 meses)
Fonte: Ministério do Trabalho.| Elaboração: AE/CDL POA.
• No varejo, o saldo fechou em -484 em julho;
• A média em 12 meses do segmento atingiu -180: já são quatro leituras no terreno contracionista, algo que não acontecia desde 2020;
Saldo do CAGED – Comércio varejista – Rio Grande do Sul
(média móvel dos últimos 12 meses)
Fonte: Ministério do Trabalho.| Elaboração: AE/CDL POA.
Considerações finais: o comportamento da massa de rendimentos sugere que o grau de repasse para o consumo nos próximos meses provavelmente diminuirá no futuro. O fato é relevante, sobretudo porque os gastos das famílias representam o principal componente do PIB. Além disso, diante do enfraquecimento dos estímulos à demanda por parte do governo federal, concentrados no primeiro semestre de 2026, os vetores relativos aos juros elevados, à situação financeira delicada de pessoas físicas e jurídicas e às incertezas domésticas (eleições e desequilíbrios das contas públicas) e internacionais (geopolítica) devem sustentar a continuidade do processo de arrefecimento paulatino do emprego.