Relatório FOCUS: as últimas previsões para a economia brasileira
Projeções para o Brasil*
(Unidades: descritas na tabela)
Fonte: Banco Central do Brasil / Relatório FOCUS (24/07/2026). *Mediana. Elaboração: AE/CDL POA.
Nas últimas semanas, observamos melhora relativamente significativa nos prognósticos do IPCA para 2026. Após ter alcançado 5,34% no dia 25 de junho, a estimativa de 24/07 acusou +5,12%. Nesse sentido, o levantamento oficial de junho do IBGE registrou ampla surpresa positiva, envolvendo tanto o índice cheio quanto os núcleos – recortes obtidos por meio da supressão de itens tipicamente voláteis. O movimento foi liderado pelos alimentos, mas acreditamos que os reflexos da assinatura do Memorando de Entendimento entre Estados Unidos e Irã em meados do mês passado, com efeito benigno sobre a cotação do petróleo, e a perda gradual de tração do nível de atividade também exerceram sua influência.
Todavia, o quadro continua inspirando cautela, uma vez que as perspectivas para prazos mais longos aumentaram: de 4,16% para 4,22% em 2027, e de +3,70% para +3,80% em 2028. Da mesma forma, a retomada dos ataques no Oriente Médio e a falta de sinalizações concretas acerca das negociações de paz fizeram com que o barril do tipo Brent subisse 7,0% até a sexta-feira, atingindo patamares próximos de US$ 100. As incertezas no campo geopolítico somam-se aos prováveis desdobramentos negativos do fenômeno climático El Niño, e ajudam a contextualizar a previsão consensual de apenas um corte adicional da Taxa SELIC, na reunião do COPOM de agosto, bem como a sustentação dos 14,00% ao ano resultantes até, pelo menos, o início de 2027.
A decisão do Banco Central Europeu (BCE) no tocante aos juros do bloco ganhou destaque. A taxa foi mantida em 2,25% ao ano, conforme as expectativas. De acordo com o comunicado, os preços da energia evoluíram em linha com o cenário delineado em junho, porém a avaliação é de que o impacto pleno da guerra sobre a inflação ainda não ocorreu. Na tradicional coletiva de imprensa, a presidente Christine Lagarde afirmou que não há qualquer comprometimento com uma trajetória predeterminada para os juros. Cabe ressaltar que os investidores atribuem probabilidade majoritária à elevação do balizador do custo do crédito no encontro de setembro.
Ademais, o governo dos EUA confirmou a sobretaxa de 10% a 12,5% para a entrada de mercadorias estrangeiras no território americano para 60 parceiros comerciais sob a alegação de uso de trabalho forçado, responsável pelo desbalanceamento das condições de competitividade. Na prática, a medida substitui a tarifa global de 10% (Seção 122). O Brasil ficou com a maior alíquota. Hoje, portanto, temos a seguinte composição: 52,9% da nossa pauta (equivalente a US$ 22,9 bilhões) são isentos, enquanto 25,3% sofrerão dupla tributação (37,5%), ou seja, 12,5% acrescidos dos 25% anunciados recentemente. Outros 3,7% estarão sujeitos a 12,5% e 0,7% exclusivamente a 25%. O restante (17,5%) diz respeito às medidas específicas da Seção 232, que estabeleceu as bases para a cobrança extra incidente sobre o aço e o alumínio, por exemplo. As principais categorias expostas aos 37,5% são: madeira, químicos, máquinas e equipamentos, rochas naturais, calçados, gorduras vegetais e animais, móveis, confecções, armas e açúcar. O Rio Grande do Sul é uma das Unidades da Federação proporcionalmente mais prejudicadas. Do ponto de vista macro, as consequências não tendem a ser tão relevantes, embora possam diminuir a produção e o emprego setorialmente.
Análise do PIB do Rio Grande do Sul no primeiro trimestre de 2026
Conforme o DEE/RS, o PIB do Rio Grande do Sul revelado em 1º de julho exibiu variação nula nos três primeiros meses de 2026 em comparação com o quarto trimestre de 2025, após a correção pela sazonalidade. A estatística veio significativamente abaixo da constatada no Brasil (+1,1%), de acordo com o IBGE. Do ponto de vista setorial, o desempenho mostrou-se bastante heterogêneo.
PIB do Rio Grande do Sul – Base: 1ºT/26
(Em variações percentuais)

Fonte: Departamento de Economia e Estatística (DEE), vinculado à Secretaria de Planejamento do RS. IBGE / CNT. *Com ajuste sazonal. Elaboração: AE/CDL POA.
A agropecuária tombou 9,9%. Já no confronto com o primeiro trimestre de 2025, o recuo atingiu 1,9%, puxado em boa medida pelo arroz (-9,3% pelo Levantamento Sistemático da Produção Agrícola de abril), que ainda atravessa um processo de reequilíbrio entre oferta e demanda. Além disso, o tabaco retraiu 2,0%. Vale ressaltar que o impacto positivo da soja tende a ocorrer majoritariamente na próxima divulgação, pois, segundo a CONAB, apenas 22% havia sido colhida até o fim de março.
Por sua vez, a indústria subiu +0,9% frente ao quarto trimestre de 2025, alavancada pela construção (+2,8%). O segmento praticamente devolveu o retrocesso verificado na leitura precedente (-3,0%). Entendemos que alguns dos vetores de sustentação envolvem: (1) as obras de infraestrutura de fortalecimento da proteção a enchentes do FUNRIGS; (2) a expansão de programas de financiamento de habitações populares. A transformação – principal componente do parque fabril – encolheu 0,3%. É bem verdade que a redução do tarifaço americano, a partir da derrubada estabelecida pela Suprema Corte dos EUA em fevereiro, trouxe alívio para determinados ramos. Todavia, os juros altos continuaram representando um severo entrave.
No que se refere aos serviços, o aumento foi comedido (+0,2%), de modo que a série renovou seu nível máximo. Contudo, as subcategorias apresentaram dicotomia. Por um lado, transporte, armazenagem e correio (+2,1%), atividades imobiliárias (+0,7%) e informação (+0,6%) se sobressaíram, enquanto intermediação financeira / seguros (-1,1%) e outros (-0,6%) caíram. Especificamente sobre o comércio (-0,2%), tivemos o quinto decréscimo seguido. O fenômeno guarda conexão com a absorção do choque dos alagamentos históricos – a ampla injeção de liquidez à época provocou a disparada incomum do varejo e do atacado, totalizando +7,0% em 2024. A dinâmica dos nichos atrelados às empresas é mais benigna em relação à prestação às famílias, fruto da necessidade de investimentos para preservação da competitividade dos empreendedores. Apesar do conjunto de incentivos à procura do governo federal e da resiliência do mercado de trabalho, a elevada Taxa SELIC acaba comprometendo parcela importante da renda das pessoas físicas com o serviço da dívida e, consequentemente, pressiona a inadimplência.
Avaliamos que a capacidade de geração de crescimento na esfera estadual é preocupante, dado que os últimos 12 meses registraram módicos +0,4%. O problema é estrutural, de tal sorte que o PIB acumulado no território gaúcho, independentemente da base escolhida – pós-pandemia (+8,1%) ou 1ºT/02 (+47,5%) – é consideravelmente inferior à média nacional: +14,7% e +71,7%, respectivamente.
A expectativa para o PIB do RS no ano de 2026 é de avanço parecido com os +2,1% projetados por nossa equipe para o Brasil. No segundo semestre, acreditamos que o cenário é de cautela, até pelos mesmos elementos que devem colaborar para frear o País, incluindo: (1) a manutenção do custo do crédito caro; (2) o menor impulso dos estímulos ao consumo; (3) a incerteza com as eleições; (4) a possível reaceleração dos preços com a retomada da guerra entre EUA e Irã. Ademais, os efeitos do El Niño intenso, com chuvas acima da média, podem prejudicar não só a atual safra de inverno como a disponibilidade dos grãos típicos de verão no ciclo vindouro.