Relatório FOCUS: as últimas previsões para a economia brasileira
Projeções para o Brasil*
(Unidades: descritas na tabela)
Fonte: Banco Central do Brasil / Relatório FOCUS (31/07/2026). *Mediana. Elaboração: AE/CDL POA.
No cenário internacional, a semana ficou marcada pela decisão manteve a taxa básica de juros dos Estados Unidos na faixa entre 3,50% e 3,75% com 9 votos. Três membros do comitê, entretanto, defenderam a elevação de 0,25 ponto percentual. Nesse sentido, a coletiva de imprensa do presidente Kevin Warsh trouxe implicações importantes. O líder afirmou que a meta de inflação não é flexível, de modo que o objetivo único é gerar a convergência para 2,0%. No entanto, citou que aumentos dos juros podem integrar a solução. Ademais, o mandatário reforçou o benefício de não fornecer sinalizações a respeito dos próximos passos da política monetária (forward guidance), obrigando os agentes a, na sua visão, ponderar o balanço de riscos dos preços e a evolução dos indicadores sem o posicionamento do FOMC.
Como resultado, os rendimentos dos títulos da dívida com vencimento de 2 anos diminuíram, ao passo que os de 30 anos subiram. A alteração reflete a perspectiva de certa leniência no combate à deterioração do poder de compra do dólar, motivando juros mais baixos no curto prazo. Em virtude da contaminação do processo de formação das expectativas dos preços, o esforço necessário para atingir os 2,0% no futuro é maior, o que exige juros mais restritivos. De toda a forma, a probabilidade por parte dos investidores envolvendo o incremento do balizador do custo do crédito no encontro de setembro é majoritária, de acordo com o Fed Watch Tool: 56,9%.
Do ponto de vista da agenda de dados, destaque para a revelação do PCE americano (métrica preferida de inflação do Fed) de junho. O índice cheio registrou pequena queda (-0,1%), puxada pelo forte recuo da energia após a assinatura do Memorando de Entendimento entre Estados Unidos e Irã. Por sua vez, o núcleo – obtido através da exclusão de segmentos tipicamente voláteis – cresceu +0,1%, ou seja, veio aquém do esperado (+0,2%).
Além disso, o PIB dos EUA referente ao segundo trimestre de 2026 expandiu +1,5% (ritmo anualizado contra o período imediatamente anterior ajustado pela sazonalidade), frustrando os prognósticos (+2,1%). Todavia, a composição foi mais positiva, pois a demanda doméstica mostrou robustez graças, fundamentalmente, ao consumo das famílias (de +0,5% para +3,2%). Os investimentos, liderados por IA, seguiram expressivos, enquanto o setor externo e os gastos do governo desaceleraram.
Aqui no Brasil, tivemos a divulgação dos termômetros do mercado de trabalho relativos a junho. Conforme a PNAD, a taxa de desocupação decaiu de 5,6% para 5,4%, em linha com o previsto, alcançando a mínima da série histórica na respectiva janela. Contudo, chama a atenção a nova perda de tração dos ganhos da massa salarial real, de tal sorte que a variação anual (+3,6%) representa a menor taxa desde maio de 2022 (+2,8%). Já o saldo entre admitidos e desligados formais do CAGED (145,2 mil) surpreendeu o consenso (110 mil). Porém, o número no acumulado do primeiro semestre (921,6 mil) é inferior aos 1,23 milhão no mesmo intervalo de 2025. De uma maneira geral, o quadro ainda é de resiliência, com algumas evidências incipientes de desaquecimento.
Por fim, a prévia da inflação oficial (IPCA-15) de julho avançou +0,06%, em contraposição aos +0,20% antevistos pelos analistas. A alimentação in natura constituiu o principal fator para justificar a diferença, mas gasolina e passagens aéreas também exerceram influência. Cabe ressaltar que os recortes subjacentes – mais sensíveis aos ciclos da produção – continuaram comportados. Consequentemente, a estimativa para o IPCA em 2026 retraiu de 5,12% para +5,03%. Dada a melhora recente observada nos últimos levantamentos, a Taxa SELIC aguardada para o término de 2026 caiu de 14,00% para 13,75% ao ano.
Decisão do Banco Central dos EUA sobre os juros – julho de 2026
Introdução:
O FOMC manteve a taxa básica de juros dos Estados Unidos (fed funds) na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, em linha com cerca de 70% das apostas dos investidores.
Quais os destaques?
1) Dos 12 diretores com direito a voto, 3 optaram por +0,25 ponto percentual. Cabe ressaltar que tamanho dissenso é um evento raro do ponto de vista histórico.
2) No comunicado, a percepção acerca da economia não sofreu modificações ante o conteúdo apresentado na reunião precedente. Em primeiro lugar, o ritmo de crescimento do nível de atividade é sólido, apesar das incertezas provocadas, em parte, pelo conflito no Oriente Médio. No que tange à dinâmica do emprego, a geração de postos formais movimentou-se em consonância com a força de trabalho, enquanto a taxa de desocupação não registrou mudanças significativas. Já a inflação permanece elevada, graças aos choques de oferta que afetaram determinadas categorias, sobretudo energia. Por fim, o texto abordou a robustez dos investimentos em capital e do desempenho da produtividade.
Principais comentários na coletiva de imprensa do presidente do Fed, Kevin Warsh:
• Não há uma meta flexível para os preços, de modo que a instituição opera somente com o intuito de promover a convergência para 2,0%;
• Aqui, especificamente, entendemos que o tom adotado foi duro (hawkish);
• Todavia, Warsh citou que aumentos dos juros “podem integrar a solução”;
• Além disso, em diversas oportunidades, defendeu o benefício de não fornecer sinalizações a respeito dos próximos passos (forward guidance). Na sua visão, isso exige do mercado o acompanhamento da evolução concreta dos dados e do monitoramento dos riscos, sem a influência do posicionamento do Fed;
Impactos e perspectivas:
Após a divulgação, os rendimentos dos títulos da dívida americana reagiram de maneira acentuada ontem. O declínio em prazos curtos (-5,3 pontos-base nos vencimentos de 2 anos) e a disparada em prazos longos (+11,2 pontos-base nos papéis de 30 anos) estão associados à avaliação de leniência em relação ao compromisso do Federal Reserve de preservar o poder de compra da moeda. Essa tolerância implica juros menores em horizontes de tempo mais enxutos. Como resultado da contaminação no processo de formação das expectativas dos preços dos agentes, o custo necessário para atingir os 2,0% sobe, obrigando então a política monetária a ser bem mais restritiva no futuro distante.
A sustentação do panorama acarreta viés de fortalecimento do dólar na esfera global, lembrando que o bom comportamento da nossa taxa de câmbio tem sido um vetor importante até o momento de algum controle do IPCA no Brasil.
De acordo com a ferramenta do CME Group (FED Watch Tool), que contempla os cenários para os próximos encontros do Comitê com base nas transações dos investidores, a probabilidade de as fed funds continuarem inalteradas em setembro (hoje em 42,6%) é levemente superior no confronto com 29/07 (41,7%). Porém, o incremento de 0,25 ponto percentual segue majoritário (57,4%), trazendo consequências para o Copom: quanto maiores os juros nos EUA, menor tende a ser o espaço para reduções da Taxa Selic no âmbito nacional.