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Relatório FOCUS: as últimas previsões para a economia brasileira

Observamos, na semana passada, uma significativa deterioração do panorama. A partir de uma costura política, o governo propôs a abertura de cerca de R$ 83 bilhões no orçamento federal para 2022 através do enfraquecimento de um de nossos pilares de compromisso com o equilíbrio fiscal: o Teto de Gastos.

A nova regra, embutida na PEC dos Precatórios, substitui o formato de correção das despesas públicas. Tal fato, combinado com a limitação do pagamento das dívidas da União para pessoas físicas e jurídicas para as quais exista o trânsito em julgado, devem fazer com que o Auxílio Brasil seja potencializado.

O mercado reagiu desfavoravelmente ao acontecimento com: (1) desvalorização das ações; (2) depreciação do Real em comparação com o Dólar; (3) aumento dos juros negociados para o futuro. Esse recrudescimento da desconfiança, responsável por tornar as condições para empréstimos apertadas, aliada à pressão de demanda sobre os preços oriunda do crescimento das transferências de renda e à visão de que menos reformas tramitem no Congresso, ajudam a fundamentar a piora notada nos prognósticos, conforme as considerações abaixo.

Produto Interno Bruto: as projeções recuaram para 2021 (de 5,01% para 4,97%) e 2022 (de 1,50% para 1,40%). Entre os termômetros divulgados recentemente, destaque para o Monitor do PIB da Fundação Getúlio Vargas, que mostrou queda de 1,0% da atividade econômica em agosto ante julho, na série com ajuste sazonal.

IPCA: as estimativas subiram tanto para 2021 (de 8,69% e 8,96%) quanto 2022 (de 4,18% para 4,40%). Além disso, pela primeira vez desde que as metas de 2023 (3,25%) e 2024 (3,00%) foram estabelecidas, houve revisão para cima para ambos os intervalos.

Taxa SELIC: o modelo que permite a extração da probabilidade das apostas dos investidores na B3 para a reunião do COPOM de amanhã e quarta evidencia que o cenário de incremento de (+1,0 p.p.) é agora minoritário, migrando de 85% há quatorze dias para 15,5%. Hoje, elevações de 1,25 e 1,50 ponto percentual concentram a maior fatia das expectativas (33,1% e 38,9%, respectivamente), mas não estão descartadas as hipóteses de 1,75 (7,0%) e, inclusive, 2 pontos percentuais (8,0%).

 

Confiança do consumidor registra leve alta em outubro

Houve avanço em comparação com setembro de 1,0 ponto (de 75,3 para 76,3) nos dados ajustados pela sazonalidade: enquanto a situação atual permaneceu praticamente estável (de 68,8 para 69,0 pontos), as expectativas para o futuro subiram (de 81,1 para 82,4 pontos). Hoje, o indicador encontra-se 13,1% inferior ao verificado em fevereiro do ano passado – antes da imposição das quarentenas.

COMENTÁRIOS:

A discriminação das estatísticas mostra que o grupo com a renda mais baixa (até R$ 2.100 mensais) foi o único com piora (de 65,1 para 63,7 pontos). Acreditamos que o resultado reflete o impacto danoso que a aceleração dos preços provoca na camada pobre.

Vale destacar que, em função do período de coleta, o levantamento capturou muito pouco do efeito do “furo” do Teto de Gastos. Cremos que a flexibilização da regra fiscal servirá de restrição adicional para a retomada consistente do sentimento das famílias nos próximos meses, uma vez que as projeções do Relatório FOCUS já sinalizam para inflação e juros maiores em 2021 e 2022, o que, naturalmente, prejudica o crescimento e, consequentemente, a recuperação do emprego.

A crise hídrica, ruídos políticos e incertezas no mercado internacional, incluindo as turbulências na China e a perspectiva de que tenhamos uma diminuição nas injeções de liquidez (moeda) oriundas do Banco Central americano, também estão no radar. Por sua vez, a melhora do quadro sanitário é uma realidade, favorecendo a expansão de segmentos que sofreram consideravelmente com a pandemia, como os serviços dependentes de interação social e os bens ditos não essenciais. Posto que diversos dos recortes em questão são intensivos em mão de obra, entendemos que esse é um vetor positivo para a geração de contratações.

 

COPOM deve acelerar o ciclo de elevação da Taxa SELIC

O COPOM, ao que tudo indica, intensificará o ritmo de alta dos juros básicos para além de um ponto percentual.

Ao longo dos últimos dias, tivemos um fato novo: uma releitura do Teto de Gastos, permitindo ao governo federal a obtenção de um espaço de R$ 83 bilhões no orçamento do ano que vem. Em várias das atas dos encontros anteriores, os membros com poder de voto destacaram a relevância de tal regra. As manifestações ressaltavam a importância da conservação dos fundamentos fiscais – responsáveis pela perseguição do equilíbrio das contas públicas e, consequentemente, pela contenção da dívida como proporção do PIB – para a condução da política monetária.

Ademais, de acordo com o Relatório FOCUS de 22/10, pela primeira vez desde que as metas de inflação para 2023 (3,25%) e 2024 (3,00%) foram estabelecidas, houve uma revisão para cima dos prognósticos para o IPCA em ambos os intervalos. Os números apontam que os agentes já não confiam na capacidade do BC em entregar o objetivo definido pelo CMN em horizontes extensos, mostrando que as expectativas estão desancoradas.

Cremos que os elementos presentes no panorama demandam uma postura enérgica (incremento de 1,25 ou 1,50 ponto percentual), em resposta ao aperto das condições financeiras para empréstimos e da saída de capitais. Hoje, também, foi divulgado o IPCA-15 de outubro, que registrou crescimento de 1,20%, superando a mediana das estimativas coletadas pela Refinitiv (+0,97%).

O movimento aguardado por nós é crucial para a credibilidade do Banco Central, embora a um custo amargo em termos de desincentivo: (1) ao consumo das famílias, (2) ao empreendedorismo; (3) à migração de portfólio de renda fixa para variável.

 

Data

26 outubro 2021

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