Ano em descompasso


Ano em descompasso

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JANEIRO, 2021

Notícias

Insumos como metais, plásticos, vidros, papéis e tecidos estão em falta ou com preços em alta, impactando desde grandes empresas até pequenos empreendedores

 

A pandemia de Covid-19 chegou há 10 meses. Uma das primeiras medidas adotadas pelos governos, visando à preservação do sistema de saúde público e privado, foi fechar o comércio e interromper as atividades da indústria e de serviços. Por semanas, manteve-se apenas o essencial funcionando, como supermercados e farmácias. Escritórios fecharam e seus funcionários foram trabalhar em casa, no home office.

Desta forma, a economia entrou praticamente em paralisia, com uma queda de 17,1% no Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul no segundo trimestre de 2020. As pessoas deixaram de consumir, as vendas caíram e a produção e oferta de produtos e serviços diminuiu em uma reação à crise instalada.

Entretanto, com as flexibilizações de funcionamento do comércio e o retorno de algumas rotinas, somadas à concessão do auxílio emergencial e a programas de manutenção do emprego, como a Medida Provisória 936, houve uma retomada da economia mais forte que o esperado em relação ao projetado no começo da crise. A desvalorização do Real também incentivou as exportações e dificultou importações e esta conjuntura acabou criando um efeito colateral: o descompasso entre a demanda e a oferta.

Sem conseguir dar conta de atender a todos, insumos como metais, plásticos, vidros, papéis e tecidos terminaram 2020 em falta ou com preços em alta, impactando da grande empresa ao pequeno empreendedor, como Xexéu Antunes, dono de uma pizzaria delivery na zona Norte de Porto Alegre, que está pagando cada vez mais caro pelas embalagens de papelão e plásticos descartáveis.

No final de novembro, a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) divulgou a pesquisa Sondagem Industrial Especial RS sobre mercado de insumos e matérias-primas. Pelo levantamento da entidade, que consultou 207 empresas gaúchas – sendo 40 pequenas, 66 médias e 101 grandes, entre 1° e 14 de outubro -, 46,9% tiveram dificuldades para atender seus clientes no país. Dessas, 6,3% admitiram que grande parte da demanda não está sendo atendida e apenas 53% conseguem dar resposta sem dificuldades.

A falta de estoques e a demanda superior à sua capacidade produtiva são as maiores causas apontadas para o não atendimento aos pedidos, atingindo 59,4% e 45,8%, respectivamente. A dificuldade se torna ainda maior com a impossibilidade de 31,3% delas de aumentar a produção, em primeiro lugar, por conta dg, falta de insumos e matérias-primas. “E o maior entrave atualmente à produção industrial. O problema da escassez de insumos atinge 90% das empresas incluídas nesse grupo e que, no momento, não podem aumentar a produção”, diz o presidente da Fiergs, Gilberto Porcello Petry.

Névoa no horizonte

Uma sondagem realizada pela Fiergs junto às empresas gaúchas verificou as perspectivas em relação ao fornecimento de insumos e matérias-primas. As respostas deixam transparecer muitas incertezas ainda para 2021. Para pouco mais da metade das empresas consultadas na pesquisa, a normalização no atendimento aos clientes no país não deve ocorrer em menos de três meses, podendo levar até seis em alguns casos. Esse é o prazo que 52,6% das empresas projetam para a solução dos problemas de atendimento à demanda e que 55,2% e 60% avaliam como necessário, respectivamente, para a regularização do mercado doméstico e externo de insumos e matérias-primas.

“Em 2016 tivemos uma crise. Aí foi a pandemia. Isso enfraqueceu a demanda. Mas agora foi um choque muito grande. Um processo rápido de reabertura. Quando a gente olha essa provável saída do Estado (da ajuda dos governos durante a pandemia), a gente vê que os fundamentos da economia são bem frágeis. Com o fim do auxílio emergencial, vai ficar bem complicado. Há muitas incertezas de maneira geral. Isso traz imprevisibilidade. Quando e como vai se encaminhar a questão da vacina, como vão soprar as questões da economia, etc.”, observa o economista da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL POA), Oscar Frank.

Mas, se por um lado há uma certa incerteza por parte dos empresários, há também quem esteja menos cético com uma reorganização mais rápida da cadeia produtiva. “Previsão que isso comece a se regularizar no primeiro trimestre ou quadrimestre. Principalmente com a chegada da vacina”, projeta Eduardo Bier.

Frank, por sua vez, diz que é preciso acompanhar os desdobramentos nos próximos meses, principalmente com vistas a evitar o impacto inflacionário. “Naturalmente, quando os preços para o produtor estão elevados, há uma tendência de levar este aumento adiante. Mas é preciso olhar para a capacidade de levar este aumento. Em alguma medida sim, quando a produção industrial voltar, provavelmente deve estabilizar”, defende o economista. Quando e como vai terminar, ainda é uma dúvida. Frank afirma que a recuperação pode vir no primeiro trimestre, mas ressalta que as coisas realmente voltarão ao normal quando se tiver previsibilidade. Isto é, quando empresas e pessoas conseguirem enxergar o horizonte de forma clara. “E preciso uma postura bem agressiva de manter a demanda. Mas eu, particularmente, acredito que a partir de março a gente comece a enxergar desaceleração dos preços. O IGPM (Indica Geral de Preços ao Consumidor) está dando uma desacelerada. Além do mais, as coisas precisam retornar ao normal. A previsibilidade é muito importante, do ponto de vista econômico e sanitário.”

Ainda, o economista da CDL Porto Alegre afirma que a recuperação pode vir ainda no primeiro trimestre, mas ressalta que as coisas realmente voltarão ao normal quando houver previsibilidade. Isto é, quando empresas e pessoas conseguirem enxergar o horizonte de forma clara. “O IGPM está dando uma desacelerada. Além do mais, as coisas precisam retornar ao normal. A previsibilidade é muito importante, do ponto de vista económico e sanitário.”

Fonte: Jornal Correio do Povo

 

Data

15 janeiro 2021

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