Análise da reserva financeira dos agentes e respectivos impactos

Desde o início da pandemia houve aumento significativo da taxa de poupança nacional. Conforme os últimos dados divulgados pelo IBGE, a parcela da renda não gasta saltou de 14,0% no segundo trimestre de 2019 para 20,9% em igual período de 2021.

Entendemos que duas razões foram determinantes para explicar o fenômeno em consideração. Primeiramente, o governo adotou diversas políticas para amenizar os efeitos da crise, tanto no âmbito da demanda – principalmente o Auxílio Emergencial – quanto pelo lado das firmas, como o Pronampe e o BEm. Além disso, momentos caracterizados por elevada incerteza costumam suscitar um comportamento previdente, responsável pela formação de colchão de recursos para o enfrentamento de situações potencialmente adversas, incluindo a perda de emprego ou uma retração forte das vendas do estabelecimento.

A Fundação Getúlio Vargas (FGV) realizou um levantamento que permite complementar a avaliação do tema. No tocante aos empresários, 64,9% dos respondentes citaram a existência de economias em agosto, ao passo que 26,4% não a possuíam, enquanto 8,8% não tinham quaisquer sobras, e estavam com dificuldades de manter as obrigações em dia.

Na abertura por categorias, o quadro é relativamente melhor no comércio (78,9%) e na indústria (63,3%). Por sua vez, os serviços somaram 54,2%, com destaque negativo para aqueles que são prestados às famílias, como alojamento e alimentação. As estatísticas são coerentes com a dinâmica da receita verificada a partir do distanciamento social, visto que os prejuízos sobre os ramos dependentes de mobilidade da população foram superiores. Cabe ressaltar que a magnitude da reserva em comparação com o faturamento anual bruto é maior para o setor secundário (45,9%), em contraposição ao varejo, que registra o menor patamar (30,9%). Especificamente sobre essa variável, os valores ultrapassam os de 2020 para todos os casos.

Na discriminação por porte, chama a atenção que os micro e pequenos empreendimentos sempre apresentaram resultados inferiores aos demais grupos. Os percentuais são consistentes com os atributos inerentes à escala, cujo tamanho reduzido tende a afetar desfavoravelmente nos custos médios de produção.

Entre os possíveis destinos do capital, os investimentos em máquinas e equipamentos, tecnologia e inovação e infraestrutura (galpões, fábricas, etc.) exibiram relevância, o que mostra uma preocupação com a competitividade dos próprios negócios. Outras opções apontadas foram a antecipação de compras de insumos / matérias primas e o pagamento de dívidas.

Já quase metade das famílias (47%) relatou que acumula dinheiro para fins precaucionais, de sorte que as alocações predominantes são: despesas correntes (28,6%), aquisição de bens duráveis (19,3%), férias (18,2%) e quitação de débitos (13,6%).

Em suma, acreditamos que a pesquisa reforça nossa crença de que há um importante amortecedor para uma queda mais acentuada do nível de atividade e uma explosão da inadimplência em 2022. Portanto, o caixa poderá ser usado para suavizar o consumo, em um contexto de pressão inflacionária, incremento dos juros e desaceleração do crescimento do PIB.

*Conteúdo exclusivo – Oscar Frank, economista-chefe da CDL POA

 

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Data

29 novembro 2021

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