Carlos Klein, presidente da CDL Porto Alegre
Trabalhar menos horas sem redução salarial traz a perspectiva de mais tempo para descanso, convivência familiar, lazer e ganhos de qualidade de vida. Mas esses benefícios virão associados aos demais efeitos da mudança: emprego, atividade econômica, custos das empresas e poder de compra podem influenciar em como esse tempo será usufruído.
Pesquisa da CDL POA mostra essa relação. Diante de um cenário em que a redução da jornada provoque aumento dos preços, 80,4% dos entrevistados demonstram propensão a utilizar o tempo livre para complementar renda. Desse total, 37,2% certamente fariam isso e 43,2% considerariam a possibilidade.
Estudo técnico da CDL POA estima que, com a redução para 40 horas e a manutenção do salário, o custo médio da hora trabalhada aumentaria 9,9% no Brasil. Parte desse aumento pode ser absorvida pelas empresas e parte pode chegar aos preços. Com repasse de 40% dos custos aos consumidores, o impacto estimado seria de 1,83 ponto percentual adicional no IPCA; com repasse integral, de 4,6 pontos.
Os efeitos vão além da inflação. O estudo estima perda de 643 mil empregos formais no Brasil, sendo cerca de 43 mil no RS e 5,3 mil em Porto Alegre, redução de 3,7% no PIB, equivalente a cerca de R$ 440 bilhões, e queda de 3,44% na arrecadação tributária.
E o cenário econômico atual limita a capacidade de absorção desses novos custos. Empresas enfrentam níveis recordes de recuperações judiciais, enquanto o endividamento e a inadimplência das famílias alcançam níveis históricos. Sem margem para absorver aumentos, os custos vão chegar aos preços, pressionando ainda mais o orçamento das famílias e resultando em redução do consumo ou maior endividamento.
Tais dados são sustentados por cálculos econômicos e precisam ser discutidos. Se o trabalhador precisar utilizar parte das horas liberadas para buscar uma nova fonte de renda, o ganho de tempo pode não se converter em qualidade de vida. Resultará exatamente no oposto, pois fechar as contas do mês já é uma realidade dura e estressante para boa parte dos brasileiros.
Artigo publicado em Zero Hora, dia 02 de setembro de 2026