Relatório Focus: as últimas previsões para a economia brasileira
Projeções para o Brasil*
(Unidades: descritas na tabela)
Fonte: Banco Central do Brasil / Relatório Focus (28/08/2026). *Mediana. Elaboração: AE/CDL POA.
No cenário internacional, o barril de petróleo do tipo Brent chegou a fechar a semana com declínio de 4%, aos US$ 88, diante da possibilidade de incremento do fluxo de embarcações no Estreito de Ormuz. Contudo, os investidores reagiram ao ataque dos Estados Unidos direcionado ao Irã no domingo (30 de agosto), algo inédito desde o término de julho, gerando retaliação de Teerã às bases americanas localizadas na Jordânia. Consequentemente, a commodity subiu ao longo da segunda-feira (31), superando US$ 90.
Do ponto de vista da agenda de dados, destaque para o PCE dos EUA referente a julho de 2026, lembrando que o indicador é o preferido de inflação por parte do Fed. O índice cheio (+0,2%) veio um pouco acima do aguardado pelos agentes, enquanto o núcleo – obtido através da retirada de alimentos e energia – avançou de acordo com as expectativas (+0,2%). No entanto, o saldo da divulgação foi negativo. Em primeiro lugar, a métrica de tendência (acumulado dos últimos 12 meses) não apresentou melhora, permanecendo em 3,7% e 3,3%, respectivamente. Ademais, as aberturas evidenciaram deterioração tanto em bens como serviços.
Outro fato relevante compreendeu a manifestação do presidente do Fed, Kevin Warsh, no tradicional seminário realizado em Jackson Hole. O mandatário afirmou que o nível de atividade encontra-se resiliente e que o quadro relacionado ao mercado de trabalho pode ser caracterizado pelo pleno emprego. Em contrapartida, o chairman reconheceu que as leituras recentes a respeito dos preços exibiram pressão e que, em caso de não convergência para a meta de 2,0% numa velocidade satisfatória, a instituição precisará agir. De uma maneira geral, o conteúdo trouxe um aspecto mais duro (hawk) acerca da política monetária.
No Brasil, a PNAD revelou que a taxa de desocupação caiu de 5,4% para 5,3% na transição do trimestre móvel encerrado em junho para julho, conforme os prognósticos. Trata-se da mínima de toda a série, iniciada em 2012. Por sua vez, a variação interanual da massa real de salários voltou a ganhar tração (de +3,6% para +4,1%), porém esse é o segundo menor valor desde meados de 2022, sugerindo o abrandamento da transmissão da renda para o consumo. Já a diferença entre admitidos e desligados com carteira assinada do CAGED totalizou 58,5 mil: bem aquém do esperado (112 mil) e o pior número na janela desde a mudança da metodologia, em 2020. Logo, os resultados, principalmente do CAGED, corroboram o enfraquecimento do ritmo de crescimento.
Por fim, a prévia da inflação oficial (IPCA-15) de agosto registrou -0,40%, ou seja, inferior ao consenso entre os especialistas (-0,31%). O recuo significativo ocorreu graças à queda da eletricidade residencial (-6,25%), motivada pela distribuição do Bônus de Itaipu. Cabe ressaltar que o efeito benigno é temporário. Entretanto, a surpresa positiva decorreu dos componentes voláteis, como alimentação in natura e passagens aéreas, além do aumento abaixo do previsto do cigarro. No tocante aos recortes qualitativos – mais sensíveis aos ciclos da produção em virtude da exclusão de itens tipicamente variáveis –, os sinais foram mistos: a média dos 5 núcleos acompanhados pelo BC desacelerou, ao passo que os serviços subjacentes continuaram elevados. O panorama é consistente com a sequência do movimento de redução da Taxa Selic na reunião de setembro do Copom: de 14,00% para 13,75% ao ano.
Análise do Índice do Banco Central (IBC) – junho de 2026
Definição: o IBC é um termômetro do nível de atividade criado por meio da agregação de pesquisas setoriais.
Brasil:
Jun-26 / Mai-26 (com ajuste sazonal):
• Total: -0,64% (consenso entre os prognósticos dos respondentes sondados pelo Broadcast+ acusava –0,5%);
• É o maior recuo desde maio de 2025 (-0,73%);
• Vale ressaltar que, na leitura anterior, a série atingiu sua máxima desde o começo do levantamento, em janeiro de 2003;
• Aberturas por categorias:
• Agropecuária (+1,0%): reverteu o declínio de maio (-0,7%), de modo que o contexto sugere acomodação;
• Indústria (-1,4%): interrompeu sequência de sete ganhos consecutivos, retornando para patamares próximos aos de janeiro;
• Serviços (-0,5%): apesar de menos intensa na comparação com o parque fabril, a retração exerceu a maior influência sobre o IBC, graças ao seu peso. Contudo, o ramo permanece perto do recorde alcançado em fevereiro de 2026;
2ºT2026 / 1ºT2026:
• Total: +0,18%;
• O Monitor do PIB, computado pela FGV, apontou +0,3%;
• Trata-se de uma desaceleração significativa frente aos +1,2% registrados pelo IBC no 1ºT/2026;
Avaliação: os segmentos mais sensíveis aos ciclos puxaram o encolhimento do indicador em junho, tanto que o IBC sem o agro caiu 0,9%. Nesse sentido, os números mensais e do trimestre são consistentes com um quadro de desaquecimento. Por um lado, a expansão encontrou no emprego e nos estímulos à procura da União certa sustentação. Por outro, a perda de fôlego é determinada, em boa medida, pelos efeitos da manutenção da Taxa Selic elevada e dos desafios para a iniciativa privada envolvendo o ambiente de negócios.
E o Rio Grande do Sul?
Jun-26 / Mai-26 (com ajuste sazonal): +0,6%;
• Aumento devolve parte das três diminuições precedentes que, quando acumuladas, totalizaram -1,2%;
• De acordo com o IBGE, a heterogeneidade foi relevante, pois a manufatura galgou +3,7%, enquanto os serviços (-2,9%) e o varejo ampliado (-1,2%) decaíram;
2ºT2026 / 1ºT2026: -0,4%
• Pior desempenho entre todas as Unidades da Federação e grandes regiões investigadas pelo Banco Central;
• Em contrapartida, no 1ºT/2026, o incremento chegou a +1,0%;
• É importante mencionar que a estatística diferiu do PIB calculado pelo DEE no período (variação nula), lembrando que o IBC é uma aproximação do Produto;
• Não obstante a sinalização do IBC no 2ºT/2026, entendemos que o cenário de crescimento do PIB na respectiva janela é bastante razoável. Isso porque, somado ao acréscimo da produtividade da safra de soja em relação ao ano passado (+18,2%) – em virtude da base deprimida (sucessivos problemas climáticos entre estiagens e a enchente de 2024) –, somente 22% da colheita havia terminado até março, conforme estimativas da CONAB;
• Ainda assim, o impacto positivo da contabilização poderia ser consideravelmente superior, uma vez que, novamente, as condições não foram as ideais;
1ºS2026 / 1ºS2025: +3,6%;
Acumulado em 12 meses até junho de 2026: +3,2%;
• A despeito dos resultados acima dos do Brasil nas referidas métricas (+1,5% em ambos os casos), a trajetória do nosso estado é alarmante: no confronto com novembro de 2013, a majoração é de apenas +3,0%, o que representa cerca de +0,2% de média ao ano;
• A irrigação deficitária nas lavouras, os investimentos públicos insuficientes, o envelhecimento da população e a posição geográfica distante dos centros consumidores são algumas das causas;
Índice do Banco Central (IBC) – por Unidade da Federação
(Em variações percentuais)

Fonte: Banco Central. *Com ajuste sazonal.| Elaboração: AE/CDL POA.
Quais as perspectivas?
Enxergamos um panorama complexo para o futuro. A taxa básica de juros alta tem gerado diversas implicações do ponto de vista do equilíbrio financeiro de pessoas físicas e jurídicas, pressionando a inadimplência, o comprometimento de renda das famílias com o serviço da dívida e os pedidos de Recuperação Judicial (RJ). Mesmo com a melhora recente da inflação, o movimento de queda da Taxa SELIC deve ser tímido, de tal sorte que o crédito continuará caro, fruto das incertezas internacionais e do desarranjo fiscal do Brasil.
Ademais, dois dos principais vetores que colaboraram para a resiliência da economia parecem estar arrefecendo. Em primeiro lugar, a massa salarial real segue subindo, porém em um ritmo mais moderado. Em segundo, os incentivos do governo federal à demanda concentraram-se no primeiro semestre.
A probabilidade expressiva de incidência do El Niño forte ou muito forte, acarretando chuvas incomuns no Sul, também preocupa. Além da possibilidade de trazer prejuízos às culturas de soja e de milho no RS, a expectativa de encarecimento dos preços dos alimentos contribui para reduzir o poder de compra dos rendimentos.