Relatório FOCUS: as últimas previsões para a economia brasileira
Projeções para o Brasil*
(Unidades: descritas na tabela)
Fonte: Banco Central do Brasil / Relatório Focus (14/08/2026). *Mediana. Elaboração: AE/CDL POA.
Ao longo da semana passada, tivemos vários indicadores revelados para os Estados Unidos referentes a julho de 2026. Em primeiro lugar, destaque para o CPI, termômetro dos preços percebidos pelos consumidores, muito embora não seja a medida preferida do Fed. O índice cheio e o núcleo, obtido pela exclusão de alimentos e energia, não apresentaram surpresas, corroborando o processo de moderação após o choque decorrente da guerra no Oriente Médio. Do ponto de vista qualitativo, no entanto, a interpretação foi positiva, pois o núcleo dos serviços arrefeceu, movendo-se de +3,2% para +3,0% nos últimos 12 meses.
O PPI, que afere a inflação dos EUA no atacado, veio aquém das estimativas no âmbito do índice cheio. Nesse caso, a acomodação do impacto do conflito no Irã é mais acelerada. Vale ressaltar que a queda nos estágios iniciais das cadeias permaneceu, enquanto as etapas próximas à demanda final voltaram a ganhar tração. A configuração sugere que a transmissão dos custos inferiores nas fases preliminares para o restante da rede não ocorreu por completo.
Além disso, as vendas do varejo americano encolheram ante junho, na série com ajuste sazonal, em termos nominais (-0,58%) e reais (-0,74%). Parte do movimento pode ser atribuída à força do mês anterior, responsável por elevar a base de comparação e gerar um efeito estatístico desfavorável. O resultado acabou sendo determinado por veículos e certos tipos de bens discricionários, ou seja, não essenciais. Considerando a rodada de dados, incluindo os levantamentos sobre a ocupação, parece-nos mais provável que o FOMC (comitê de política monetária dos EUA), por ora, mantenha a taxa básica de juros entre 3,50% e 3,75% ao ano na reunião de setembro.
Aqui no Brasil, o IBGE divulgou a pesquisa acerca da atividade dos serviços para junho de 2026, de modo que o volume ficou estável no confronto com maio, depois do ajuste sazonal. O desempenho superou o consenso dos especialistas sondados pelo Broadcast+ (-0,2%). Contudo, apenas uma das cinco grandes categorias investigadas mostrou incremento: informação e comunicação, com majoração de 1,8%. Especificamente a respeito do comércio, o conceito restrito avançou 0,5%, ao passo que o prognóstico apontava +0,2%. Dos oito ramos, quatro diminuíram, com proeminência de “livros, jornais, revistas e papelaria” (-9,9%). O nicho devolveu boa parcela do impulso transitório que motivou a disparada de 16,1% em maio, causada pelo álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Pelo lado das altas, “hiper e supermercados” cresceram 1,1%, alavancados, entre outros fatores, pela deflação da alimentação no domicílio no respectivo período. Já o conceito ampliado caiu pela quarta oportunidade consecutiva (-1,0%), porém menos do que o esperado (-1,4%). Apesar de melhores do que as expectativas, os números, quando contextualizados, reforçam o cenário de desaquecimento não só do setor terciário, mas da economia como um todo.
O IPCA de julho subiu 0,07%, um pouco acima do aguardado pelos agentes (0,02%). A alimentação no domicílio exibiu recuo de 1,14%, ainda que menos acentuado frente ao previsto pelos analistas (-1,18%). Por sua vez, os recortes subjacentes, cuja sensibilidade aos ciclos da produção e do emprego aumenta por conta da retirada de componentes voláteis, registraram maior pressão em relação às leituras recentes. Todavia, acreditamos que o momento da inflação segue benigno. No que tange ao futuro, a preocupação envolve os desdobramentos do fenômeno El Niño. As informações não alteraram o IPCA computado para 2026 (5,02%) e a Taxa Selic para o encerramento do ano (13,75% a.a.).
Avaliação do IPCA de julho de 2026
Destaques da edição:
1) Índice cheio veio levemente superior aos prognósticos: o IPCA cresceu +0,07% em julho, enquanto a mediana entre as estimativas coletadas pela Reuters acusava +0,03%. No que tange ao acumulado dos últimos 12 meses, a variação moveu-se de +4,64% para +4,44%, de tal sorte que o número voltou a figurar dentro do limite máximo de tolerância estabelecido pelo Regime de Metas (+4,5%).
2) Alta bastante concentrada em uma única categoria: o segmento de “habitação” apresentou elevação de +0,99%, com influência de +0,15 ponto percentual. Nesse sentido, o incremento da eletricidade residencial (+3,09%) decorreu dos reajustes das concessionárias em diversas praças como São Paulo, Porto Alegre e Curitiba. Cabe lembrar que a bandeira tarifária continuou amarela. Por sua vez, o setor de “saúde e cuidados pessoais” aumentou +0,40%, puxado por perfume (+1,04%) e plano de saúde (+0,42%). No primeiro caso, o fenômeno possivelmente guarda conexão com o repasse gradual do encarecimento dos petroquímicos em virtude do choque gerado pela guerra no Oriente Médio, resultando em +11,42% nos últimos 12 meses. No segundo, o efeito parcial da correção determinada pela ANS pesou.
O ramo de “alimentação e bebidas” caiu -0,67%. Contudo, a queda verificada na parte consumida no domicílio (-1,14%) ficou abaixo da esperada, pois os agentes integrantes do Relatório FOCUS projetavam -1,18%. Trata-se de quebra do padrão desde março, marcado por surpresas positivas. Já o vestuário também registrou deflação (-0,66%), porém, como sua importância é modesta, o impacto é pequeno (-0,03 p.p.).
Os transportes avançaram +0,05%. Entretanto, alguns dos principais componentes exibiram dinâmicas distintas. Por um lado, a manutenção do subsídio à gasolina foi fundamental para o recuo de -1,37%. Por outro, as passagens aéreas subiram +11,67%, basicamente em linha com a sazonalidade inerente à época de férias escolares.
3) Indicadores qualitativos um pouco mais pressionados: à exceção dos bens industriais, os demais recortes com maior sensibilidade aos movimentos da produção e do emprego, obtidos através da exclusão de itens voláteis, ganharam tração em relação a junho.
• Média dos cinco núcleos acompanhados pelo Banco Central: de +0,21% para +0,26%;
• Serviços subjacentes: de +0,22% para +0,42%;
• Manufaturados: de +0,11% para -0,10%;
No entanto, as médias móveis trimestrais com ajuste sazonal em ritmo anualizado (tendência de curto prazo) arrefeceram.
• Média dos cinco núcleos acompanhados pelo Banco Central: de +4,91% para +4,53%;
• Serviços subjacentes: de +4,99% para +4,57%;
• Manufaturados: de +3,49% para +2,30%;
IPCA por grupos – Brasil
(Em % e pontos percentuais)

Fonte: IBGE / IPCA. Elaboração: AE/CDL POA.
Quais as perspectivas?
A leitura do IPCA não compromete o quadro de melhora recente. A expectativa para agosto é de -0,17%, de acordo com o consenso entre os analistas que participam do Relatório FOCUS, graças, em boa medida, à distribuição do bônus de Itaipu e à diminuição (pontual) da energia. Todavia, o panorama para o futuro inspira cautela. Os desdobramentos do El Niño muito provavelmente reverberarão de forma negativa ao longo dos próximos meses. A despeito da moderação da expansão da massa salarial real, a ocupação permanece aquecida, afetando os serviços intensivos em trabalho. Além disso, as consequências dos estímulos à demanda do governo ainda não se materializaram por completo. Por fim, a geopolítica é incerta, de modo que a eventual retomada ampla dos ataques é capaz de majorar a cotação do barril de petróleo, transmitindo-se pelas cadeias econômicas.
Do ponto de vista das implicações para a política monetária, os dados não devem alterar a trajetória para a Taxa SELIC. Nossa previsão para a Taxa SELIC é de 13,75% ao ano, ou seja, um corte adicional até o término de dezembro, que pode ocorrer tanto em setembro quanto após as eleições.
Avaliação das vendas do varejo em junho de 2026
Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) / Variável: faturamento deflacionado pelo IPCA / Fonte: IBGE.
Brasil – conceito restrito: jun-26 / mai-26 (com o ajuste sazonal):
• Elevação de +0,5%, superando o consenso entre os especialistas sondados pelo Broadcast+ (+0,2%);
• É o quinto incremento nas últimas seis leituras;
• Mesmo assim, o resultado no primeiro semestre em relação ao intervalo correspondente de 2025 totalizou apenas +1,9%;
• Conforme a abertura por categorias, 4 das 8 registraram contração;
• O principal destaque ficou por conta de “livros, jornais, revistas e papelaria”, com baixa de -9,9%. Nesse sentido, o tombo diz respeito ao fim do impulso provocado pelo álbum de figurinhas da Copa do Mundo, visto que o segmento havia disparado +16,1% em maio;
• Já “combustíveis e lubrificantes” (-1,7%) e “tecidos, vestuário e calçados” (-2,6%) vêm alternando perdas e ganhos em 2026;
• No entanto, a dinâmica de “materiais para escritório, informática e comunicação” (-1,3%) é mais preocupante. São cinco declínios em seis oportunidades, com queda acumulada é de 15,1%;
• Ao todo, 4 ramos subiram;
• “Outros artigos de uso pessoal e doméstico” exibiu majoração de +2,4%, embora não consiga sustentar uma trajetória de crescimento;
• O recorte de “Hiper e supermercados”, que responde por quase metade do indicador, avançou +1,1%. A deflação da alimentação no domicílio na respectiva janela (-0,39%) provavelmente influenciou positivamente;
• “Móveis e eletrodomésticos” (+0,4%) e “fármacos e farmacêuticos” (+0,2%) expandiram pela segunda vez seguida;
Brasil – conceito ampliado: jun-26 / mai-26 (com o ajuste sazonal):
• Decréscimo de -1,0%, enquanto a mediana entre os prognósticos dos analistas acusava -1,4%;
• É o quarto recuo consecutivo;
• “Veículos, motos, partes e peças” (-1,5%) e materiais de construção (-3,5%) diminuíram;
Apesar de melhores do que o esperado, os números, quando contextualizados, reforçam o cenário de desaceleração na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2026. O impacto dos juros altos e a situação financeira delicada das famílias (comprometimento de renda com o serviço da dívida e inadimplência perto das máximas) ajudam a explicar o quadro. Em contrapartida, o desempenho no acumulado do ano (+1,9% em ambos os casos) encontrou na resiliência do emprego e nos incentivos à demanda do governo federal algum fôlego.
Rio Grande do Sul: jun-26 / mai-26 (com o ajuste sazonal)
• Conceito restrito: -1,6%;
• Conceito ampliado: -1,2%;
O IBGE não disponibiliza os dados setoriais corrigidos pela sazonalidade nas esferas estaduais. Portanto, cabe recorrermos aos confrontos de 2026 com os períodos equivalentes de 2025 para obtermos o termômetro dos negócios.
Volume de vendas do comércio varejista* por categoria – Brasil e Rio Grande do Sul
(Em variações percentuais)

Fonte: IBGE. *Faturamento deflacionado. Elaboração: AE/CDL POA.
A métrica de tendência (acumulado dos últimos 12 meses) voltou a apresentar variação não negativa, de modo que a fraqueza das estatísticas guarda conexão com a absorção do choque atrelado às enchentes de 2024, responsável pelo aumento da base de comparação. À época, houve injeção significativa de recursos (R$ 29 bilhões, de acordo com o Tesouro), adiantamento de pagamentos de benefícios sociais, concessão de carências para impostos, contas básicas e linhas de crédito, e a permissão para o Saque Calamidade do FGTS dos celetistas. O evento suscitou a formação de estoques de itens essenciais e a antecipação do consumo de bens destinados à recomposição do patrimônio danificado, incluindo móveis, eletrodomésticos, veículos e materiais de construção. Além disso, a conjuntura complexa em nível nacional e o excesso de calor no verão exerceram sua contribuição para conter a intensidade da retomada.
Volume de vendas do comércio varejista ampliado* – Rio Grande do Sul
(Variação % acumulada nos últimos 12 meses)

Fonte: IBGE. *Faturamento deflacionado. Elaboração: AE/CDL POA.
Quais as expectativas?
As projeções das variáveis relevantes para a movimentação do comércio são desafiadoras. No tocante aos preços, a perspectiva é de reaceleração entre o terceiro e o quarto trimestres de 2026, em virtude do fenômeno El Niño. Consequentemente, o ciclo de redução da Taxa SELIC nos próximos meses será limitado. O mercado de trabalho continua aquecido, porém com sinais de moderação. Os estímulos à procura ainda não se materializaram por completo nas transações, mas foram mais concentrados nos primeiros meses do ano. O Novo Desenrola Brasil e o início do Desenrola Adimplentes colaborarão para a retração da negativação, liberando certo espaço nos orçamentos, contudo seus efeitos são pequenos e temporários. Ademais, permanecem as incertezas referentes ao panorama internacional (conflitos geopolíticos) e às eleições de outubro no Brasil.