Diversos levantamentos mostram que a inadimplência entre pessoas físicas encontra-se bastante pressionada. Por exemplo, o percentual de adultos no Brasil com alguma restrição em crédito, cheque ou protesto alcançou 34,7% em março de 2026, de acordo com a Equifax | Boa Vista, ou seja, o recorde histórico. Já o Banco Central mede o percentual de operações de crédito junto às instituições financeiras com pelo menos uma das parcelas com atraso maior do que 90 dias. Nesse caso específico, tivemos 5,27%, de tal sorte que a estatística não está distante da máxima de 5,51% constatada em março de 2012.
Preocupado não só com os efeitos sobre o consumo das famílias (importante vetor do PIB), mas também com a popularidade do Presidente Lula em ano eleitoral, o governo federal deve lançar em breve uma reedição do Desenrola. O objetivo, com base nas notícias veiculadas até o momento, é permitir a renegociação de modalidades sem garantias, caracterizadas por custos muito elevados: o cartão de crédito, o cheque especial e o crédito pessoal não consignado. A ideia é possibilitar a todos os que recebem até 5 salários mínimos descontos de até 90% através do Fundo Garantidor de Operações (FGO), concebido originalmente para micro e pequenos empreendimentos. O tamanho do abatimento dependerá do prazo do atraso, de modo que débitos antigos serão proporcionalmente mais beneficiados. Além disso, haverá a opção de direcionamento de até 20% do FGTS para a quitação das pendências. Por fim, o saldo devedor contará com juros menores, de aproximadamente 27% ao ano.
Ao longo do período de vigência do primeiro Desenrola, entre 17 de julho de 2023 e 20 de maio de 2024, o valor das parcelas com atraso superior a 90 dias com os bancos caiu de R$ 114,2 bi para R$ 109,4 bilhões em termos nominais. No entanto, é difícil separar o impacto do programa, cujo gasto fiscal foi de cerca de R$ 2 bilhões, dos demais fatores relacionados à conjuntura, como a taxa básica de juros: à época, a Taxa SELIC flutuou de 13,75% para 10,50% ao ano. Hoje, em contrapartida, o montante das dívidas com atraso totaliza R$ 171,4 bilhões. A Taxa SELIC mais alta (somente em março o COPOM iniciou o movimento de queda lenta e gradual, após o referencial ter atingido 15% ao ano), a criação dos empréstimos consignados para trabalhadores da iniciativa privada e a continuidade da expansão vertiginosa das bets contribuíram para a trajetória.
É válido chamar a atenção para outro problema conhecido na literatura econômica: o risco moral. Na medida em que resgates são cada vez mais frequentes, gera-se um incentivo para que os agentes não se comportem da maneira adequada, assumindo riscos desnecessários. A mesma lógica pode ser aplicada ao REFIS no âmbito das empresas. Logo, a parcimônia na condução de políticas do tipo é essencial.
Entendemos que a proposta do Desenrola 2.0 é meramente paliativa. O verdadeiro remédio envolve a educação financeira, incluindo o uso consciente do crédito, a comparação entre diferentes preços e condições e o cálculo do comprometimento da renda que não venha a tornar a situação insustentável.