Como podemos interpretar os últimos dados do mercado de trabalho brasileiro?

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, é um importante termômetro a respeito do comportamento do mercado de trabalho. Nesse sentido, a contextualização dos números possibilita uma melhor compreensão do atual momento da economia, viabilizando também a construção de cenários para o futuro.

No tocante à taxa de desocupação – fatia da população com 14 ou mais anos procurando por uma vaga, mas sem lograr êxito – houve retração de 11,5% no trimestre móvel entre janeiro e março para 10,9% entre fevereiro e abril. Trata-se da maior queda mensal já registrada em todo o levantamento, igualando agosto de 2021 (-0,6 ponto percentual). Além disso, o valor é o menor desde fevereiro de 2016 (10,3%).

Entendemos que o resultado está em linha com a força da retomada, observada a partir de fevereiro, em função de três motivos principais: (1) retorno de diversas atividades presenciais e a demanda reprimida por serviços e o comércio de bens “não-essenciais”; (2) o impacto da alta das commodities sobre o PIB; (3) o aumento da liquidez disponível através do Auxílio Brasil, do Programa Renda e Oportunidade e do pagamento do abono salarial ano-base 2020.

A abertura das estatísticas demonstra que a geração de postos no setor privado informal vem se sobressaindo, embora o grupo com carteira assinada continue em expansão. Todavia, no auge da pandemia, a primeira fora mais afetada do que o segunda. Duas causas ajudam a explicar o referido fenômeno: (1) a rigidez existente em virtude dos custos determinados pela legislação; (2) as ações de preservação dos vínculos colocadas em marcha pelo governo federal até o encerramento de 2021, incluindo a suspensão do contrato e diminuição da jornada com redução proporcional dos vencimentos mediante concessão de benefício.

Por sua vez, a tendência da série da massa de salários efetivamente recebida pela mão de obra apresenta recuo considerável desde o início do distanciamento social. Porém, apesar da recuperação recente, o nível permanece bem aquém do verificado no começo de 2020. Por um lado, a quantidade de informais, cujos rendimentos são via de regra inferiores, ultrapassa em +7,7% o patamar do mesmo período de 2019, enquanto que a soma dos formais variou apenas +2,5%. Por outro, a inflação seguiu acelerando, atingindo seu pico em quase 20 anos.

A perspectiva para o segundo semestre é de que tenhamos dificuldades para exibir mudanças positivas nos indicadores em decorrência: (1) do fim dos efeitos das medidas da União; (2) do encarecimento do crédito; (3) do panorama externo adverso – cadeias produtivas globais desorganizadas, lockdowns na China e aperto da política monetária dos países desenvolvidos, sobretudo EUA; (4) da incerteza com o processo eleitoral.

Data

02 junho 2022

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