Após suspender o “Dia da Libertação”, o prazo de 90 dias dado pelos Estados Unidos para a renegociação dos parâmetros comerciais com diferentes países expirou em 09 de julho. Nesse sentido, diversas nações tiveram as sobretaxas elevadas em comparação aos 10% até então vigentes, incluindo o Japão e a Coreia do Sul, com 25%. Por sua vez, Laos e Myanmar figuravam com os patamares mais altos (40%). Todavia, chamou a atenção a cobrança de uma tarifa extra de 50% a partir de 1º de agosto para a entrada de artigos brasileiros no território americano.
Determinados aspectos englobando os potenciais impactos carecem de discussão. O primeiro diz respeito ao declínio das trocas internacionais. Mediante algumas aproximações, nossas exportações para os EUA responderam por 1,86% do PIB de 2024. Portanto, uma eventual queda de 20% diminuiria o Produto em 0,37 ponto percentual – o cálculo não abrange efeitos dinâmicos, como redirecionamento dos bens para mercados alternativos ou triangulações com parceiros para atenuar a majoração dos custos. Na medida em que o setor externo deixa de ser um vetor de crescimento, o PIB e a criação de empregos restam prejudicados.
Se considerarmos as estatísticas oficiais do MDIC, o parque fabril apresenta o maior grau de exposição. No que se refere ao Brasil, destaque para as seguintes CNAE’s 2.0, cujo peso dos EUA é representativo: petróleo, siderurgia (ferro e aço), veículos aéreos, alimentos industrializados, madeira e celulose, café, materiais elétricos e máquinas e equipamentos. Já para o Rio Grande do Sul, temos tabaco, materiais elétricos, calçados, celulose e madeira, armas, carnes, borracha, etc.
Em segundo lugar, a inflação é outra consequência. Desde a divulgação da carta do Presidente Donald Trump, a taxa de câmbio sofreu desvalorização, saindo de R$ 5,45 para cerca de R$ 5,60. Além disso, a mesma alíquota de importação pode ser aplicada junto aos Estados Unidos através de retaliação. Caso aconteça, nos parece ser pouco provável que os empreendedores nacionais tenham condições de absorver parte do aumento em suas margens de lucro, de modo que o repasse dos preços deve atingir o consumidor, pressionando o IPCA dentro de uma conjuntura caracterizada pela corrosão do poder de compra da moeda. Apesar das leituras benignas recentes, o índice alcançou +5,35% nos últimos 12 meses até junho, ou seja, bem distante da meta de +3,0%.
Em terceiro, a argumentação eminentemente política acaba por reduzir a chance de um entendimento pelas vias diplomáticas. Como resultado, não é possível descartar uma escalada do conflito, embora com menor probabilidade. No entanto, o acirramento da disputa impede o aprofundamento das relações com a maior economia do planeta.
Por fim, a imprevisibilidade gerada constitui fonte adicional de incertezas no atual cenário. Por conseguinte, os empresários tendem a adotar um comportamento de espera, sobretudo no que tange aos investimentos que geralmente exigem tempo longo até a maturação.
Logo, o quadro é preocupante. Ainda assim, confiamos na capacidade de bom senso dos comandos para que se chegue a um denominador comum benéfico para ambos os lados.
Oscar Frank, economista-chefe da CDL Porto Alegre