Quais as implicações da turbulência na Evergrande?

As recentes incertezas relacionadas à solvência da incorporadora Evergrande, a segunda maior do segmento na China, causaram temores nos mercados internacionais. À vista disso, o Índice VIX, que mede a volatilidade das ações negociadas no S&P 500, atingiu na segunda-feira (20) patamar inédito desde março. A preocupação, mais especificamente, esteve atrelada à dificuldade de pagamento de juros equivalentes a US$ 83,5 milhões aos investidores.

O valor supracitado pode parecer pequeno, mas é necessário contextualizar o fenômeno. As dívidas totais da empresa ultrapassam US$ 300 bilhões, de modo que um eventual inadimplemento geraria diversos efeitos negativos. Nesse caso haveria aumento considerável da aversão ao risco nos empréstimos entre bancos e para os consumidores finais, obstruindo o canal do crédito via redução abrupta das concessões.

Ademais, de acordo com um artigo especializado (*1), o peso da construção civil e dos setores conexos é de 29% do PIB do país asiático. Logo, a incidência de um calote impactaria desfavoravelmente não somente o crescimento doméstico, como também do mundo.

Os autores do estudo trazem alertas relevantes. Em primeiro lugar, a importância atual do ramo imobiliário e de seus desdobramentos para a economia da China é semelhante ao pico registrado por Irlanda e Espanha antes da crise financeira de 2008/2009. Outros indicadores do mesmo levantamento mostram que o tamanho médio dos lares por pessoa é compatível com o verificado em nações ricas, incluindo Alemanha e França. Por sua vez, o preço das residências como proporção da renda em cidades como Pequim e Xangai, supera, com folga, o de metrópoles globais, como Londres, Paris, Tóquio e Nova Iorque.

De uma maneira geral, os comparativos sugerem que a margem de manobra para a expansão adicional da categoria é limitada. Portanto, entendemos que a manutenção da alavancagem, catapultada pelos incentivos cedidos pela ação do poder público local, embora não produza grandes problemas no curto prazo, tende a acarretar em sérios desequilíbrios no longo prazo.

(*1) “Has China’s Housing Production Peaked?”, de Rogoff e Yang (2021).

*Conteúdo exclusivo – Oscar Frank, economista-chefe da CDL POA

 

________________________________________

Veja também:

 

Data

23 setembro 2021

Compartilhe