Destaques Econômicos CDL POA

Relatório FOCUS: as últimas previsões para a economia brasileira

Produto Interno Bruto: enquanto o prognóstico de crescimento para 2021 continuou estável em +5,04%, o patamar esperado para 2022 caiu pela quarta oportunidade sucessiva, de +1,63% para +1,57%. Acreditamos que o cenário descrito é condizente com o resultado do Índice de Confiança do Consumidor da FGV de setembro, que apresentou leve queda no componente da situação atual, mas recuo considerável nas expectativas carregadas com relação ao futuro.

Preços: o IPCA calculado para 2021 moveu-se de +8,35% para +8,45%. Trata-se da 25ª majoração consecutiva. Na semana anterior, o IBGE divulgou a leitura prévia de setembro, de modo que o incremento (+1,14%), somado ao fato de ter sido o maior já registrado no período desde o início do Plano Real, surpreendeu também o consenso dos analistas sondados pela Reuters (+1,02%).

Taxa SELIC: a trajetória não mostrou alteração ao longo dos últimos sete dias. Logo, as projeções apontam para dois acréscimos de 1 ponto percentual dos juros básicos nos próximos encontros do COPOM, em outubro e dezembro. Consequentemente, o balizador alcançaria 8,25% ao ano no encerramento de 2021, e de 8,50% a.a. no fim de 2022. Caso o Comitê esteja verdadeiramente comprometido com a meta de inflação de 2022 (3,5%), não restará outra opção a não ser endurecer o aperto monetário supracitado. É possível que o ritmo corrente se mantenha, porém essa alternativa apenas posterga a resolução do problema.

Comentários acerca do panorama – OCDE

Houve redução na perspectiva de avanço do PIB mundial em 2021, dos +5,8% estimados em maio, para +5,7%. A revisão é atrelada aos desdobramentos da variante Delta da COVID-19, embora os efeitos negativos, de uma maneira geral, ainda sejam pequenos. Para 2022, o aumento conjecturado subiu de +4,4% para +4,5%.

A Organização destaca a heterogeneidade dos números para a atividade em diferentes países e setores: retomada forte nas nações desenvolvidas, ao passo que os emergentes vêm tendo algumas dificuldades. Tais empecilhos se exacerbam na medida em que as cadeias de produção seguem desestruturadas.

No que se refere à inflação, o entendimento é de que o choque é transitório. Todavia, o balanço de riscos pende para novas pressões no curto prazo, fomentadas por uma eventual demanda reprimida significativa e pela sequência da escassez de insumos / matérias primas no mercado. Além disso, a evolução benigna do quadro sanitário, combinada com o uso da poupança formada pelos agentes desde o começo da pandemia, poderão ajudar a diminuir a ociosidade e o desocupação, não obstante o impacto prejudicial sobre os preços.

 

Análise da decisão do COPOM – setembro de 2021

O COPOM optou por elevar a Taxa SELIC em 1,00 ponto percentual, de 5,25% ao ano para 6,25% ao ano. De acordo com o comunicado divulgado no dia 22, o juízo é de que o atual ritmo é suficiente para colocar a inflação ao consumidor próxima à meta definida para o ano que vem, de 3,5%.

Do ponto de vista técnico, cremos que a deliberação não é consistente com a perseguição do objetivo supracitado, de modo que as razões que embasam tal visão foram expostas pelo próprio Banco Central.

1) O BC reconhece que cenário de deterioração adicional dos índices de preços, alimentado pelos riscos fiscais, é mais provável do que aquele em que há uma desaceleração, em decorrência de um recuo duradouro das commodities em reais.

2) O modelo de previsão do COPOM aponta que o IPCA antevisto para 2022 é de 3,7%, superando, portanto, o alvo estabelecido para 2022.

Além disso, o consenso de mercado vem sistematicamente revisando os prognósticos do IPCA em 2022 para cima, de sorte que o último número já está em 4,1%.

3) Os membros do Comitê acreditam que o PIB do Brasil apresentará “robusto crescimento” até dezembro. Todavia, se a opinião é de que o panorama favorece a expansão da atividade, deveríamos ter uma pressão extra sobre os preços, na medida em que o acréscimo de demanda reduza a ociosidade.

Impactos para os negócios: não há dúvidas de que o incremento da Taxa SELIC representa um remédio amargo para o empreendedorismo, em um contexto que sucede a recessão determinada pelo novo coronavírus. Nesse sentido, o encarecimento dos empréstimos traz malefícios tanto pelo lado da oferta (pessoas jurídicas) quanto da procura (pessoas físicas). Logo, a solução efetiva do problema passa, necessariamente, pelo equilíbrio das contas públicas e de outras reformas que aumentem a produtividade.

 

Confiança do consumidor recua significativamente em setembro

A sondagem de setembro exibiu queda em comparação com agosto de 6,5 pontos (de 81,8 para 75,3) nos dados ajustados pela sazonalidade, diante da contribuição negativa da situação atual (de 69,8 para 68,8 pontos) e, principalmente, das expectativas para o futuro (de 90,9 para 81,1 pontos). Hoje, o indicador encontra-se 14,2% inferior ao registrado em fevereiro do ano passado – antes da imposição das quarentenas.

COMENTÁRIOS:

A discriminação das estatísticas mostra que a retração do ICC foi influenciada por todas as faixas de renda investigadas, com destaque para os que ganham entre R$ 2.100 e R$ 4.800 mensais (-8,3 pontos). Já aqueles com rendimentos até R$ 2.100 seguem apresentando o maior grau de pessimismo, o que pode ser explicado pelo efeito que a inflação exerce para esse grupamento da população.

Somados aos fatores que agiam para impedir o avanço sustentado do índice – desemprego, deterioração do poder de compra da moeda, ciclo de elevação das taxas de juros e crise hídrica – tivemos, como fato novo relevante, o recrudescimento da instabilidade institucional. Também vale ressaltar que questões recentes, como o aumento do IOF e a turbulência na Evergrande, não foram plenamente capturadas porque ocorreram ao final do período de coleta.

Embora nossa crença seja de que parte das perdas serão devolvidas em breve, há desafios consideráveis para a geração de um incremento contínuo da confiança. Além das razões citadas anteriormente, cremos que eventuais surpresas desfavoráveis advindas do exterior (desaquecimento chinês e redução mais rápida dos estímulos oriundos dos países desenvolvidos) impactariam diretamente o crescimento doméstico através dos canais financeiro e comercial. Por outro lado, acreditamos que o vetor dominante de alta é o progresso do quadro sanitário, que ajudará na continuidade do movimento de reabertura gradual dos negócios.

*Conteúdo exclusivo – Oscar Frank, economista-chefe da CDL POA

 

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Data

27 setembro 2021

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