Considerações e perspectivas para a crise hídrica

A falta de chuvas representa um desafio relevante para a sustentação da retomada da renda do Brasil. Apesar da diminuição da dependência das hidrelétricas e dos investimentos realizados em linhas de distribuição ao longo das duas últimas décadas, a situação é delicada.

Para fins de exemplificação, o patamar dos reservatórios na região Sudeste encontra-se cerca de 30 pontos percentuais inferior ao verificado na média entre 2000 e 2020, de acordo com o Operador Nacional do Sistema. Por conta da sazonalidade típica, observamos que novembro e dezembro serão os períodos mais críticos, elevando a probabilidade de interrupções no fornecimento. O cenário também é igualmente preocupante no Centro-Oeste.

O governo dispõe de duas variáveis de controle para amenizar uma parte do problema. A primeira é o racionamento que, nesse momento, está ocorrendo via aumento dos preços, e não do estabelecimento de limites para a demanda. Hoje, a bandeira “escassez hídrica” determina a cobrança de R$ 14,20 a cada 100 kWh: incremento de 127,6% ante a praticada em junho (R$ 6,24 a cada 100 kWh). A segunda diz respeito ao uso das usinas térmicas. Conforme a ONS, a geração através do calor atingiu, em julho, o pico da série, iniciada em 1996 – foram 13.857 GWh.

No entanto, a esfera pública não tem qualquer domínio sobre a questão pluviométrica. Além disso, a margem de manobra sobre o estímulo ao crescimento no curto prazo, sem acarretar em desequilíbrios como a inflação, é bastante restrita. Logo, o ritmo da recuperação é um vetor importante de avaliação do panorama futuro. Testes específicos demonstram que existe uma associação duradoura entre o Índice do Banco Central de atividade econômica – aproximação do Produto Interno Bruto – e o consumo de energia.  

Alguns exercícios mostram que, com base no padrão histórico dos dados, o tamanho da resposta do primeiro (elasticidade) em comparação com o segundo é de 1,1. Como as expectativas de mercado para o PIB de 2022 caíram 0,43 ponto percentual (de 2,00% para 1,57%) entre os dias 01/09 e 01/10, o impacto projetado em termos de menor procura por energia é de 0,473 ponto percentual no ano que vem, o equivalente a 171,8 GWh.

Entendemos que a conjuntura descrita já é responsável pela queda do poder de compra dos salários dos trabalhadores e do encarecimento dos custos dos empresários. Caso venha a se agravar, poderemos ter uma dose adicional indesejável de incerteza, prejudicando as decisões dos agentes.

*Conteúdo exclusivo – Oscar Frank, economista-chefe da CDL POA

 

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Data

06 outubro 2021

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