Lojistas apostam no frio para incrementar vendas

Lojistas apostam no frio para incrementar vendas

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JUNHO, 2021

Notícias

 

No vestuário, meta busca superar 2019, último ano de comparação

 

Em termos de receita e desempenho, grande parte dos lojistas quer esquecer o inverno de 2020, período em que as restrições causadas pela pandemia do novo coronavírus foram mais severas. Os indicadores, que despencaram em um momento que deveria ser próspero, em geral, não têm sido utilizados sequer para realização de comparativos e para o estabelecimento de metas. A expectativa para a estação mais fria do ano, que teve início nesta semana, é superar as vendas de 2019, quando as baixas temperaturas já tinham decepcionado o comércio, sobretudo de roupas de frio.

Segundo levantamento do Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre (Sindilojas), realizado com associados do comércio de roupas, calçados e artigos de cama, mesa e banho da Capital, o movimento deste período já pode ser comparado com o de dois anos atrás. Ao todo, 43% do grupo ouvido indicou que os resultados já são comparáveis aos de 2019. Para o presidente do Sindilojas, Paulo Kruse, uma combinação de fatores é determinante para o otimismo. “Neste ano, o frio chegou cedo e boa parte da população está sendo vacinada. Isso está tornando os números mais razoáveis. Então, há uma previsibilidade que gera um otimismo para o segundo semestre”, comenta.

Com a chegada definitiva da estação e a expectativa pela intensificação das baixas temperaturas, 61% dos lojistas esperam manter os números, enquanto 32% acredita em um crescimento. Que prevê aumento, acredita que ele deva ficar em mais de 20%. “Alguns lojistas se anteciparam, já que quando as temperaturas baixas chegam ainda no outono as vendas costumam superar o estimado. Porém, nem todos estavam preparados para o frio, abastecidos de produtos, porque não tínhamos tido um inverno como este desde 2016. Então, há falta de produtos e previsão de ainda mais frio em agosto. Isso deve intensificar o movimento e impedir liquidações, comuns quando esses meses são mais fracos”, diz Kruse.

De acordo com o presidente da Associação Gaúcha para Desenvolvimento do Varejo (AGV), Sérgio Galbinski, os aprendizados trazidos pela pandemia, tanto aos comerciantes quanto aos consumidores, também devem dar mais estabilidade às vendas. “Na época em que tivemos que fechar, houve um problema de imagem para os lojistas. O público pensava que era ali que se dava o contágio e, agora, ele está se dando conta que não é nas lojas. Além disso, as pessoas estão aprendendo a conviver com a pandemia, usando máscaras e tomando todos os cuidados para voltar às ruas. Então, aqueles empresários que conseguiram passar pela pandemia estão retomando seus clientes e com boas expectativas”, explica.

Comportamento dos clientes mudou

Uma quase unanimidade entre lojistas e entidades do comércio é de que os clientes que estão retornando às compras físicas não são os mesmos de antes da pandemia. O inverno, estação marcada por um tradicional aumento de ticket médio, deve ser pautado também por outras variáveis. A percepção é de uma transformação que vai dos produtos que são demandados até o poder aquisitivo dos consumidores. A mudança de rotina de trabalho das pessoas e a não retomada de eventos devem ser pontos de bastante impacto no comportamento do consumidor. “Sabemos que, quando a pandemia terminar, o número de consumidores que vai caminhar pelas calçadas não vai ser mais o mesmo, porque eles estão adquirindo outros hábitos.

Por exemplo, a compra de vestuário e calçados costumava ser muito influenciada pelos eventos, pelo dia a dia profissional, mas com o home office, que tem nos deixado mais em casa, as motivações mudaram. A procura passou a ser por produtos diferentes”, salienta Gabinski. A não presença do cliente em lojas físicas também obrigou os comerciantes a buscarem por novas formas de vender, mesmo para produtos de vestuário que têm uma forma bastante tradicional de comercialização. E a aposta vai além da abertura de e-commerces, é preciso se dedicar ao relacionamento com os clientes, misturando diferentes canais, conforme o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL POA), Irio Piva. “O ano de 2020 nos mostrou que não basta apenar ter um site.

É necessário utilizar WhatsApp, Instagram, telefone, porta a porta, enfim, buscar novas maneiras de comercializar. Uma forma que tem se tornado comum é iniciar o processo no digital, mandar uma sacola com mercadorias para o cliente provar e, então, fechar a compra”, detalha. Outro fator afetado foi o poder aquisitivo dos clientes e a forma como eles lidam com isso. Se por um lado, há uma observação de mais cautela por parte do público, evitando compras por impulso e uma busca por preços acessíveis, por outro, percebe-se um redirecionamento das formas de consumo.

“É inegável que uma parte da população viu diminuir seu poder de compra. Entretanto, é preciso notar que também há parcela que investia em outras coisas, como viagens, por exemplo, e, agora, tem dedicado esse recurso ao comércio local”, afirma Piva.

Momento é de tentar recuperar o faturamento

Para quem tem no inverno o motivo principal de existência, 2020 exigiu coragem e criatividade. Processos, métodos e a forma de trabalho tiveram de ser repensados. Agora, em consequência, é hora de coletar resultados. Esse é o caso da Ballardin Malhas, marca com sede e fábrica em Caxias do Sul e mais de 12 mil revendedores no País, que estima um crescimento de 30% nas vendas para 2021.

“A pandemia nos obrigou a sair do conforto e mudar o nosso método. Isso fez com que percebêssemos que era possível expandir. Em 2019, vendíamos basicamente para cidades da região da Serra, e no ano passado, em um novo processo logístico, começamos a direcionar nossos produtos para outras regiões. Passamos a ter presença em cidades frias de Santa Catarina e Paraná. E, atualmente, estamos indo mais longe, chegando até São Paulo e Rio de Janeiro”, conta a diretora de marketing da empresa, Adriele Daniel. Outra aposta que tem corroborado no otimismo e nos movimentos da Ballardin é o e-commerce, lançado em em agosto de 2020. “Somos uma marca com 52 anos de história e buscamos sempre um relacionamento transparente com os clientes.

Então, acreditamos que isso faz com que o público perceba que pode confiar na hora da compra remota. Nossa maior fatia de clientes na loja online, por incrível que pareça, está no Rio, em Copacabana. E é um público que gosta muito de cores fortes. No ano passado, a nossa peça mais vendida foi um pala rosa pink e nossa coleção era quase toda de cores mais neutras. Então, neste ano estamos investindo em tons mais vibrantes e coloridos”, ressalta. Segundo a marca, são, em média, 200 atendimentos por dia para pré-avaliação de revendedores, o que deve levar a dois mil novos até agosto, reforçando-os como a principal fonte de vendas da marca. A estimativa leva em consideração a maior possibilidade de atuação em espaços físicos, devido ao aumento da vacinação e à diminuição dos números de contágio pelo coronavírus.

O mesmo motivo leva à espera de uma recuperação das lojas próprias da Ballardin, sobretudo a de Farroupilha, localizada em um shopping e que passou por melhorias durante o período de baixo movimento. Recuperação dos bons índices também é o que busca a Aduana, marca de moda masculina, que possui nove lojas físicas na Região Metropolitana. Porém, segundo o CEO da empresa, Nelson Jawetz, mesmo com a expectativa de aumento do ticket médio em função da estação, o cenário ainda segue desafiador. “Trabalhamos com uma previsão, porque, infelizmente, não podemos ter certeza de que o inverno vai corresponder. E ainda temos dificuldades, principalmente em função do descontrole que atingiu a cadeia produtiva e afetou o fornecimento de insumos.

No entanto, a perspectiva é que esse inverno seja muito positivo para as vendas em função do frio, que leva as pessoas a comprarem”, aponta. Em 2020, a Aduana passou por uma série de movimentos de adequação. Entre reduções no quadro de colaboradores e nos espaços físicos, a marca também investiu e revisou processos. A loja do BarraShopping Sul ganhou uma revitalização e o mix de produtos passou a ter ainda mais peças casuais. “Nosso negócio depende muito do setor de eventos e eles ainda não estão ocorrendo. A nossa linha casual já vinha tendo uma boa representatividade, mas o crescimento foi bem significativo para atender às novas necessidades do cliente. O e-commerce também observou aumento de procura, embora sigamos apostando muito na experiência de compra presencial que proporcionamos. Então, esperamos nos sair bem”, finaliza Jawetz.

Fonte: Jornal do Comércio

Data

25 junho 2021

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