Destaques Econômicos CDL POA

Relatório FOCUS: as últimas previsões para a economia brasileira

PIB: o prognóstico para 2021 subiu pela quarta semana consecutiva, avançando de +3,21% para +3,45%. Trata-se do patamar mais alto antevisto pelo mercado desde 09 de fevereiro (+3,47%). Acreditamos que a divulgação do Índice do Banco Central (IBC) de atividade referente a março teve papel crucial nessa revisão, pois a despeito da queda em relação ao período anterior na série com ajuste sazonal (-1,59%), a variação superou a mediana coletada pelos analistas sondados pela Bloomberg (-3,4%). A estatística reforça a probabilidade de acréscimo da renda nacional no primeiro trimestre, puxado pelo custo do crédito deprimido, pela poupança acumulada das famílias durante a pandemia e pela estabilidade provisória da mão de obra que assinou os acordos da antiga MP 936.

Inflação e Taxa SELIC: o IPCA aguardado para 2021 cresceu de +5,06% para +5,15%, apenas 0,1 ponto percentual a menos do que o limite máximo de tolerância (+5,25%). Por um lado, a perspectiva de congelamento dos medicamentos, apesar de ajudar no controle dos preços no presente ano, pode gerar um problema para 2022. Por outro, a escassez de chuvas, que impacta negativamente sobre os reservatórios das hidrelétricas, foi responsável pelo encarecimento da energia, com o acionamento da bandeira vermelha nível 1 em maio. A tendência é de que a ANEEL passe a adotar o nível 2 em junho e, possivelmente, estenda-o até dezembro.

Segundo o IBGE, o resultado do IPCA de abril (+0,31%) veio praticamente em linha com o consenso do Relatório FOCUS (+0,30%). Já o IGP-10 em maio registrou +3,24%, conforme a FGV, por influência do atacado (+4,20%). Embora o Real tenha se apreciado em comparação com o Dólar recentemente, a cotação de diversas commodities, utilizadas como insumos para a fabricação de bens industriais, apresentou incrementos significativos.

Diante do comportamento da inflação, os agentes seguem reavaliando a trajetória futura dos juros. Ainda que a taxa para o encerramento de 2021 tenha permanecido idêntica (5,50% ao ano), o valor aumentou para o fim de 2022 (de 6,25% para +6,50% ao ano).

Comentários acerca do panorama – COPOM

Cenário internacional: retomada robusta em alguns países desenvolvidos, a partir da dupla combinação entre pacotes fiscais e a vacinação contra o coronavírus. No âmbito da política monetária, a propensão é de que os juros prossigam baixos por um longo intervalo, fruto da ociosidade relevante. Desafio para os emergentes, especificamente, é o recrudescimento dos preços nas nações avançadas em função do uso de medidas amplamente expansionistas.

Contexto doméstico: recuperação surpreendeu positivamente, mesmo com a deterioração sanitária. Produtos básicos em ascensão deverão reverberar, essencialmente, sobre alimentos e manufaturados na ponta final. Espera-se que a inflação no curto prazo perdure, mas a crença é de que o fenômeno é temporário.

O COPOM pressupõe uma nova elevação de 0,75 na Taxa SELIC na reunião de junho. Além disso, o ciclo de majoração continuará nos próximos meses, mantendo, não obstante, estímulos para contribuir com o restabelecimento dos rendimentos e da ocupação.

 

Confiança recupera parte das perdas em abril

As variáveis que rastreiam a percepção sobre os rumos da economia são importantes ferramentas para a análise da conjuntura e para a construção de cenários. Quanto mais favoráveis, maior tende a ser a força da atividade, e vice-versa.

A sondagem de abril mostrou que, no caso dos consumidores, o aumento foi de 4,3 pontos (de 68,2 para 72,5). Já para os empresários do segmento, a elevação foi superior, de +11,6 pontos (de 72,5 para 84,1). Logo, apenas uma fração das quedas de março foi devolvida: 44% e 77%, respectivamente. Ambos os indicadores também permanecem bem abaixo dos valores registrados em fevereiro de 2020, ou seja, antes da imposição das quarentenas: -17,4% e -15,7%, pela ordem.

Todas as estatísticas apresentam dois subcomponentes: situação atual e expectativas. No que tange às famílias, a avaliação do primeiro passou de 64,0 para 64,5 pontos, e de 72,5 para 79,2 pontos para o segundo. Por sua vez, o vetor do momento presente avançou de 75,9 para 81,6 pontos para os varejistas e atacadistas, enquanto a interpretação para o futuro subiu de 70,2 pontos para 87,3 pontos.

Comentários: cremos que a “despiora” na leitura sobre a situação atual reside na reversão da alta do número de óbitos por COVID-19 e de ocupação de UTI’s, a partir, principalmente, da segunda metade do mês. No entanto, em função da data de coleta das informações, entre a primeira e a terceira semana, essa mudança não foi plenamente capturada pelo levantamento. Ademais, notamos flexibilizações parciais das medidas de distanciamento social em diversas localidades. O desempenho recente das perspectivas com relação ao futuro, na nossa opinião, está ancorado na continuidade do processo de imunização da população, permitindo a redução da riscos.

No curto prazo, políticas compensatórias nos âmbitos fiscal e de crédito da União fornecerão algum fôlego ao PIB. Outro elemento positivo diz respeito aos indícios, embora incipientes, de normalização das cadeias produtivas e de acomodação da taxa de câmbio. No campo negativo, temos a condição financeira complicada dos ramos não essenciais, a deterioração do mercado de trabalho, além das incertezas sanitárias e com as contas do governo federal.

 

Avaliação do Novo CAGED – março de 2021

O Ministério da Economia divulga regularmente o Novo CAGED. As evidências representam um termômetro das movimentações formais via CLT, além de bolsistas, servidores federais, estaduais e municipais, autônomos e dirigentes sindicais.

Brasil: criação de 184.140 vagas em março, superando o consenso do Projeções Broadcast (+150.000) e o valor registrado em igual época de 2020 (-276.350). Julgamos que comparações mais longas estão inviabilizadas pelas mudanças metodológicas introduzidas desde o ano passado. Por um lado, as admissões no período em questão (1,608 milhão) exibiram queda contra fevereiro (1,736 milhão). Esse fato reforça a tendência de retração do nível de atividade nesse ínterim, em função da adoção de restrições adicionais ao funcionamento dos negócios em diversas partes do Brasil para frear a disseminação da COVID-19.

Por sua vez, as demissões aumentaram ante o mês precedente. Cremos que a redução do contingente de mão de obra com estabilidade provisória devido ao Benefício Emergencial de Emprego (BEm) de 2020 e o próprio encolhimento da economia são algumas das causas.

Rio Grande do Sul: geração de 17.762 postos em março. No ranking que confronta esse número em relação ao conjunto de trabalhadores em fevereiro, alcançamos a sexta colocação entre as Unidades da Federação (+0,69%), ultrapassando a média nacional (+0,46%). As informações por categorias mostram que a parque fabril (+9.479) originou o maior saldo, por conta da contribuição exercida pelo tabaco (+4.029).

Especificamente sobre o varejo, foram 1.235 cargos erradicados, com destaques para:

  • Artigos de vestuário e acessórios (-1.318);
  • Calçados e artigos de viagem (-375);
  • Móveis, colchoaria e artigos de iluminação (-178);
  • Outros artigos de uso doméstico (-166);
  • Artigos recreativos e esportivos (-126);

No âmbito do atacado (+4.000), houve influência decisiva da soja (+1.383) e de outras matérias primas agrícolas (+1.087), na esteira da recuperação no campo.

Acumulado do ano: o Rio Grande do Sul gerou +74,4 mil vagas no primeiro trimestre de 2021. Trata-se de um incremento de +2,95% no estoque de trabalhadores, acima da média nacional (2,13%). Entendemos que a diferença é fruto do efeito estatístico favorável, determinado pela baixa significativa da renda e da ocupação no território gaúcho em 2020 – somada à pandemia, tivemos uma severa estiagem da safra de grãos.

Na discriminação por setores, a agropecuária apresentou variação relativa ao seu tamanho de +6,72%, o equivalente a 5.546 oportunidades a mais. Depois veio a indústria (+5,95%, ou +38.708 postos), seguida pela construção (+2,67%, ou +3.513 vínculos). Já o comércio abriu 8.131 vagas.

O início do pagamento do coronavoucher e a reversão da curva ascendente da letalidade e da utilização de leitos para tratamento da COVID-19, que permitiu novas flexibilizações do distanciamento social, pode propiciar um resultado melhor em abril. As perspectivas, na nossa visão, ainda são delicadas para o segundo trimestre. Porém, deve haver evolução positiva, embora gradual, a partir do terceiro, na medida em que o processo de imunização da população ganhe tração.

 

*Conteúdo exclusivo – Oscar Frank, economista-chefe da CDL POA

 

Data

17 maio 2021

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