Destaques Econômicos CDL POA

Relatório FOCUS: as últimas previsões para a economia brasileira

Produto Interno Bruto: o prognóstico para 2021 caiu de +5,15% para +5,04%, e de +1,93% para +1,72% em 2022. Entendemos que as reavaliações sistemáticas dos números para baixo apresentam as seguintes causas fundamentais: (1) a crise hídrica; (2) a pressão sobre os índices de preços; (3) a ascensão dos juros para níveis mais restritivos no futuro, travando a geração de emprego e de renda; (4) as incertezas no âmbito fiscal; (5) as turbulências no campo político. Segundo o IPEA, o crescimento potencial computado para 2022 é de apenas 0,92%. Porém, dada a ociosidade ainda considerável, tanto de mão de obra quanto capital, existe a possibilidade de avançarmos para além desse patamar sem a criação de desequilíbrios, como a inflação.

Preços: o IPCA calculado para 2021 moveu-se de +7,58% para +8,00%. Trata-se da 23º alta consecutiva. A aceleração vem na esteira da divulgação do resultado do indicador oficial de agosto, de modo que o incremento (+0,87%) veio bem acima da mediana do mercado (+0,71%), conforme a Reuters.

Taxa SELIC: o valor antevisto para o fim de 2021 saiu de 7,63% ao ano (a.a.) para 8,00% a.a.. Hoje, a expectativa é de aumento de 1,00 ponto percentual (p.p.) na reunião do COPOM dos dias 21 e 22 – de 5,25% para 6,25% a.a.. Todavia, o modelo que permite extrair a probabilidade das apostas dos investidores no tocante à decisão do Comitê na B3 mostra que os cenários de 1,25 p.p. (41%) e de 1,50 p.p. (24,9%) contemplam quase dois terços das movimentações de recursos. Cremos que uma majoração de 1,00 p.p. está totalmente descartada, em função de declarações recentes de alguns membros de que o Comitê compromete-se a realizar os esforços necessários para perseguir a meta de inflação de 2022, de 3,5%.

Contas públicas: os próximos dias devem ser marcados pela busca de um acordo em torno do tema dos precatórios, visto que a perspectiva da rubrica para 2022 é 65% superior em comparação com 2021. Também preocupa a escalada do INPC, utilizado para corrigir despesas sociais do governo. Estimativas da Asa Investments revelam que o espaço para expansão de dispêndios no ano que vem pode ser inferior a R$ 10 bilhões, diminuindo em relação ao verificado até poucas semanas atrás, de R$ 30 bilhões. A questão ganha relevância adicional com o desejo do Executivo Federal em ampliar o Bolsa Família, e do consequente impacto sobre o Teto de Gastos.

 

Avaliação dos indicadores de inflação às famílias em agosto

O IPCA cresceu +0,87% no mês passado, marca inédita para o período desde o ano 2000. Vale ressaltar que o resultado veio acima do consenso das instituições sondadas pela Reuters (+0,71%) e das que compõem o Relatório FOCUS (+0,67%). Conforme o IBGE, oito das nove grandes aberturas registraram alta, de modo que duas delas responderam por 69,0% da majoração no agregado: “transportes” (+1,46%) e “alimentação e bebidas” (+1,39%).

No primeiro caso, destaque para os combustíveis (+2,96%), influenciados principalmente pela gasolina. A causa, desta vez, não diz respeito à flutuação do barril de petróleo (-1,6% em relação a julho) nem à taxa de câmbio (depreciação de 1,8% no mesmo intervalo de tempo), mas à atualização do Preço Médio Ponderado ao Consumidor Final em vários estados, que serve de base de cálculo para a cobrança de ICMS.

Quanto ao segundo recorte, o clima adverso favoreceu a geração de desequilíbrios em determinadas mercadorias usufruídas no domicílio. Já aquelas desfrutadas fora dos lares aceleraram, como lanche e refeição, a partir da retomada gradual das atividades propiciada pela melhora do quadro sanitário. Ademais, outros fatores que ainda permeiam o cenário e pressionam os índices são: os programas de sustentação dos empregos e da renda do governo federal, embora menos abrangentes do que em 2020; e a desorganização das cadeias produtivas, refletindo o alastramento da COVID-19 em nações fornecedoras da China e da recente crise portuária no país.

De setembro de 2020 até agosto de 2021, o IPCA atingiu +9,68% – cômputo não verificado desde fevereiro de 2016 (+10,36%), e bem distante da tolerância máxima de 5,25% definida no sistema de metas para o ano corrente.

Conjuntura econômica: desempenho do comércio do RS em julho

Após queda expressiva em junho (-5,0%), o volume de vendas do varejo gaúcho na definição restrita recuperou uma fração das perdas no mês subsequente, ao aumentar 1,9%, depois da correção pela sazonalidade. O nível da série continua em patamares elevados, atingindo o segundo maior valor desde o início do levantamento, porém 3,3% abaixo do registrado em maio. Já em relação a junho de 2020, o avanço somou +10,5%, ainda refletindo a base afetada pela instituição do distanciamento social. No conceito ampliado, as variações foram, pela ordem, de +2,9% e +10,5%.

Cremos que a melhora do quadro sanitário pode ter contribuído para o movimento, em função da alteração dos protocolos estaduais realizada no fim da primeira quinzena do referido período.

As informações detalhadas por ramos evidenciam uma típica heterogeneidade. Pelo lado positivo, os  nichos beneficiados pela demanda reprimida foram novamente os destaques, como “outros artigos de uso pessoal e doméstico”, “tecidos, vestuário e calçados” e “veículos, motocicletas, partes e peças”, com altas de +88,8%, +82,3% e +15,8%, respectivamente, sobre igual intervalo do ano anterior. Algumas categorias mantiveram a resiliência, como “farmacêuticos, médicos, ortopédicos, perfumaria e cosméticos” (+17,2%), dada sua característica de necessidade para os indivíduos, e “materiais de construção” (+3,1%), em linha com a realocação de gastos das famílias determinada pelo prolongamento do tempo de permanência nos lares.

Por sua vez, a decepção foi hiper e supermercados (-8,6%), divisão responsável por aproximadamente metade do índice agregado. O emprego combalido e a aceleração da inflação prejudicam o segmento via arrefecimento da massa salarial real.

Vale lembrar que os indicadores capturam somente a dinâmica das lojas com pelo menos 20 colaboradores, de modo que entendemos ter ocorrido um processo de substituição parcial das transações das pequenas para as grandes ao longo da pandemia.

O futuro deve ser marcado pela dificuldade de geração de crescimento sustentado do setor varejista, na medida em que a normalização das atividades aqueça a procura por serviços. Além disso, o incremento dos preços e a subida mais rápida dos juros também representarão desafios.

*Conteúdo exclusivo – Oscar Frank, economista-chefe da CDL POA

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Data

13 setembro 2021

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