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Reforma é a senha para a economia em 2019

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NOVEMBRO, 2018

Notícias

Lugar-comum no discurso de economistas e analistas financeiros, o futuro da economia brasileira dependia, até dias atrás, do resultado das urnas. Com a eleição concluída e os novos governos estaduais e federal tomando forma, a visão de quem projeta o futuro parece agora menos embaçada. A Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL-POA) promoveu essa semana, na Capital, um encontro com especialistas na área. Empresários, estudiosos e jornalistas tentaram antecipar o ambiente que deverá se tornar real a partir de 1o de janeiro de 2019. Este cenário aponta para possíveis tendências de mercado no que se refere aos governos e também aos investidores.

Governo brasileiro precisa gastar menos para ser confiável outra vez

Assim como funciona na casa das pessoas, quando a despesa é muito alta é preciso que se faça ajuste no orçamento, com cortes e economia de gastos. Ninguém se sustenta muito tempo gastando mais do que ganha – acaba perdendo a confiança e o crédito. É isso que ocorre com o governo federal que, para “tocar” o Brasil, consome mais do que arrecada em tributos. Por ser deficitário e, algumas vezes, ficar devendo, o Brasil se torna “sujo” na praça e afasta daqui os investimentos mais robustos, que são os principais ingredientes no bolo da economia.

Conforme o doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Aod Cunha, o sucesso na receita da economia brasileira está 100% amarrado na capacidade de gastar menos, já a partir do ano que vem. “A perspectiva para 2019 traz um certo otimismo, muito com o resultado das eleições. O novo governo tem uma agenda de reformas, mas precisará entregar estas reformas”, frisa. Cunha, que foi secretário da Fazenda durante o governo Yeda Crusius (PSDB), explica que o deficit público, que diz respeito às contas do governo, tornou-se muito elevado, batendo hoje na casa dos 8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. “Isto faz com que a dívida pública cresça, e acaba afastando os investimentos. O investidor tem medo que esta dívida fuja de controle. O otimismo do empresário pode se deteriorar com esta incerteza”.

Quando o otimismo é importante, mas exige cautela da população De acordo com o economista, a onda de otimismo que mobiliza o empresário a pensar em um “feliz ano-novo” é alimentada pelo cenário internacional, que aponta para um ciclo mundial de crescimento econômico, com efeito positivo no Brasil. “É bom que se tenha otimismo, mas ele precisa ser cauteloso. No Brasil o pior da crise já passou, mas é importante que o empresário esteja atento ao mercado”. Cunha reforça a necessidade de aprovar a reforma da Previdência, para reduzir o Custo Brasil e dar confiança ao investimento. “Para que este otimismo se transforme em realidade, será necessário fazer a reforma que o governo discute há tanto tempo e que o novo presidente e sua equipe sinalizam como possível”. O otimismo deverá durar da virada do ano até o fim do primeiro trimestre, explica o doutor em Economia. Neste tempo ocorrerá a organização do novo governo e, até lá, nenhuma reforma precisa estar concluída. “Porém, será importante ver a capacidade do governo em negociar as reformas, sobretudo da Previdência. Ela impactará no desempenho econômico e poderá permitir a criação de um novo ciclo de desenvolvimento”, avalia.

 

O MUNDO CONSPIRA

Aod Cunha diz que em todo o mundo a economia vive o maior ciclo de crescimento após a crise de 1930. Segundo ele, a natureza do mundo é consumir, crescer e movimentar recursos financeiros. Nesta fase de expansão, as agências norte-americanas colocam o Brasil ao lado de Rússia, Índia, Austrália e México como as nações com maior potencial de ascensão econômica para 2019. “Estou muito convencido que os mercados irão reagir de forma muito rápida a partir das reformas. Nós não precisamos crescer tanto ao ano, um incremento de até 3% é ideal para o Brasil, mas ele depende desta mudança, que é necessária”.

A crise não é só no RS e vai “aparecer” em outros Estados

Para o economista, além das reformas que o governo federal terá que colocar em prática a partir de janeiro, existe uma crise financeira em vários Estados, não apenas no Rio Grande do Sul. Segundo ele, Rio de Janeiro e Minas Gerais também agonizam com suas contas públicas, e isto não é segredo. “O que nós veremos nos próximos dias são mais Estados pedindo ajuda ao governo, por conta de endividamentos que ocorreram entre os anos de 2012 e 2015”. Naquela época, conta Cunha, vários Estados utilizaram as operações de crédito como receita corrente, incorporando estas verbas ao seu caixa. Só que o dinheiro acaba e a conta fica. “Certamente Rio Grande do Norte e Paraná terão problemas, sobretudo com a folha. Isto será um grande desafio ao governo federal”. Assim como na União, o economista defende que os Estados parem de gastar mais do que arrecadem. “Haverá uma grande negociação com governadores, sobretudo, em cima da necessidade de fazer com que se cumpram as leis de responsabilidade fiscal e o comprometimento dos gestores com o equilíbrio das contas em seus Estados”.

E falando em Rio Grande do Sul, um dos aspectos que prejudica o Estado é o envelhecimento da população, que ocorre de forma mais rápida aqui. “Para entender a economia gaúcha, é preciso entender que a população aqui é mais velha que no resto do País. A demografia é um quesito que pode gerar, inclusive, oportunidades”, pondera Cunha.

 

PROJEÇÃO ECONÔMICA DE ANO-NOVO

É preciso acreditar no negócio

Se na economia o resultado depende quase em sua totalidade do governo e das medidas que serão tomadas no ano que vem, para quem está do outro lado do balcão, de cara com o cliente, a realidade é outra. Para a diretora do grupo Lins Ferrão, detentor das lojas Pompeia e Gang, Carmen Ferrão, independente do governo que está no comando do País, o empreendedor não pode se encolher diante de incertezas econômicas. “Eu me lembro na época da hiperinflação. Nunca sabíamos ao certo o valor de uma peça, pois todos os dias vinham as tabelas de atualização. Passamos por tudo aquilo sem fraquejar”, compartilha.

O investimento é tão importante para o grupo que o conselho administrativo não esperou o resultado das eleições presidenciais para traçar as metas dos próximos cinco anos. “Havia duas opções, Haddad e Bolsonaro. Escolhemos a nossa, continuar crescendo e acreditando naquilo que fazemos melhor, que é oferecer moda para o consumidor”, explica. O Lins-Ferrão programa a sua expansão, que é virtual, por meio do e-commerce, e concreta, com a abertura de mais 60 lojas físicas – 23 da marca Pompeia e 37 da marca Gang. “Queremos estar presentes onde o nosso cliente está, saber o que ele quer e como ele quer. Esta é a nossa estratégia”. A Pompeia viu seu boom digital acontecer quando criou uma ação junto ao Big Brother Brasil 18, com a TV Globo.

A mídia colocou no ar a loja virtual da rede, lançando a Pompeia em todo o País. “Hoje, 170 mil usuários têm nosso aplicativo, outros 460 mil visitam nossa loja virtual pelo celular. Em um ano, nós registramos 5 milhões de portas de entrada na internet. Isto mudou tudo, nosso raciocínio de negócio, inclusive”.

Unificação de impostos ajudaria

Jorge Bender é diretor das Lojas Monjuá e das Lojas 3 Passos, conhecidas por serem redes de comércio popular. Ele acredita em uma simplificação de impostos, pois não há como baixar a carga tributária em meio à dificuldade que o governo tem de sanear as contas públicas. No entanto, para quem tem porta aberta para atender clientes, juntar tributos em uma cota única mensal pode ser uma grande ajuda. “Com isso, o investimento e o próprio consumo podem aumentar, e assim o governo poderá baixar as alíquotas destes impostos”. Bender crê que a mudança que se espera hoje poderá ter reflexo por dez anos. Esperançoso no novo, o empresário conta que o que for plantado a partir de 2019 ditará o rumo da economia até 2029 “O país precisa de um ciclo de crescimento. Não podemos ficar esperando as mudanças para hoje e amanhã. Vamos trabalhar para crescer e investir nos próximos dez anos”, aponta. Defensor de um Estado menor, responsável pelos serviços sociais à população, Bender diz que o governo precisa reduzir seu tamanho e deixar a atividade comercial à iniciativa privada, que tem know-how para isto. “É fundamental que ocorram as privatizações. O País tem mais de 400 estatais; muitas delas só alimentam a corrupção e são exemplos de má gestão.

O objetivo nelas é a acomodação política, então, acabando com isso, começará um processo de moralização da política”, defende.

Dinheiro parado envelhece

O presidente da gigante Calçados Beira Rio, Roberto Argenta, fala em euforia e otimismo. Ele conta que o segmento de calçados está feliz com 2019, e projeta crescimento. Para amplificar esta expansão, Argenta acredita ter descoberto a fórmula que irá gerar 12 milhões de empregos. “É melhor do que a proposta do Meirelles, que prometia 11 milhões”, brinca, ao fazer referência à campanha de Henrique Meirelles (MDB), no primeiro turno. O empresário, que fabrica 10 milhões de pares de sapatos por mês, para atender 25 mil clientes dentro e fora do Brasil, está convicto de que não é preciso guardar tantos dólares como reserva cambial. “Para mim, podemos usar 30% das reservas na criação de um fundo soberano. Este fundo poderá financiar empreendimentos diretamente nos municípios e Estados”, sugere.

Segundo ele, deixar este dinheiro parado – calcula representar R$ 370 bilhões – não é inteligente. “Dinheiro foi feito para investir. Uma empresa que não investe por guardar dinheiro fica velha e fora do mercado. Um País que não investe fica velho, ultrapassado”. Argenta sugere que o fundo seja administrado pela Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, acessíveis a todos os municípios do País, com juros de 1% ao ano. “Atualmente, o governo recebe 0,5% sobre o valor aplicado em reservas.

Com este percentual obteria exatamente o dobro”, justifica. O diretor propõe também a manutenção da taxa cambial, que coloca o dólar no patamar dos R$ 3,70, assim como a criação de um mercado comum latino-americano, ampliando o comércio exterior até o México. “Compartilhem este plano. Eu já mandei uma cópia para o Bolsonaro, mas quanto mais gente comentar, mais fácil será de aplicar”.

Fonte: Jornal Gazeta do Sul – Santa Cruz do Sul