Quantidade de trabalhadores subutilizados no RS é recorde

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JANEIRO, 2020

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Grupo chegou a 1,027 milhão de pessoas no terceiro trimestre de 2019, alta de 7,9% em relação a igual período de 2018

Reflexo da crise econômica, o número de trabalhadores subutilizados permanece em alta no Rio Grande do Sul. No terceiro trimestre de 2019, o grupo aumentou para 1,027 milhão de pessoas. Trata-se da maior marca já registrada no Estado pela série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2012.

Frente a igual período de 2018, o avanço chegou a 7,9%. Ou seja, no intervalo de um ano, o grupo teve acréscimo de 75 mil pessoas, contingente similar à população estimada para o município de Alegrete, na Fronteira Oeste, de 74,2 mil.

Os subutilizados são divididos em três grupos. O primeiro é o dos desocupados, ou desempregados, que procuram, mas não encontram vagas com ou sem carteira assinada. O segundo contempla os subocupados, que realizam atividades de menos de 40 horas por semana, como os populares bicos.

Por fim, a terceira parcela é descrita como força de trabalho potencial. Engloba pessoas que chegaram a buscar empregos, mas não estavam disponíveis para atuar por diferentes motivos, além de profissionais desalentados que desistiram da procura por novas oportunidades.

Os dados integram a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral (Pnad), cuja edição mais recente foi divulgada em novembro. A partir do estudo, GaúchaZH levantou estatísticas anteriores na base do IBGE.

– Os números traduzem a situação da economia nos últimos anos. A recuperação ainda não veio de maneira tão expressiva – pontua o coordenador da Pnad Contínua no Estado, Walter Paulo de Sousa Rodrigues.

A administradora Liliane Gai, 52 anos, sentiu as dificuldades existentes no mercado de trabalho. Com dois cursos de pós-graduação no currículo, a moradora de Porto Alegre deixou há cerca de três anos cargo em empresa do ramo odontológico. Liliane relata que procurou novas oportunidades, mas esbarrou apenas em vagas com remuneração aquém da esperada. Foi aí que decidiu permanecer em casa e vender produtos fitoterápicos.

– Trabalho menos do que antes. Gostaria de ter estabilidade com novo emprego. Mas até parei de procurar. As empresas fazem exigências, só que pagam pouco – conta a administradora.

Defasagem

Segundo o IBGE, o que puxou a alta dos subutilizados foi o grupo dos desempregados. Em relação ao terceiro trimestre de 2018, essa parcela subiu 11,1%, para 540 mil pessoas. Ou seja, teve acréscimo de 54 mil integrantes em um ano.

A força de trabalho potencial também aumentou. Frente ao terceiro trimestre de 2018, registrou elevação de 12,1%, para 204 mil pessoas. Isso significa que, em 12 meses, 22 mil entraram nessa parcela. Já os subocupados passaram de 285 mil para 283 mil, recuo de 0,7%.

Analistas costumam mencionar que o mercado de trabalho é um dos últimos indicadores a reagir após períodos de recessão. Caso a economia brasileira ganhe fôlego em 2020, como sinalizam projeções, a criação de vagas formais também tende a avançar, apontam especialistas.

– O mercado de trabalho responde com defasagem. Quando a economia passou a cair, demorou um pouco para gerar efeitos negativos no emprego. Agora é o contrário. A economia está acelerando, só que o emprego vem a reboque – sublinha o economista-chefe da CDL Porto Alegre, Oscar Frank.

No terceiro trimestre do ano passado, o número de trabalhadores subutilizados também subiu no país, mas em menor ritmo, em termos percentuais, do que no Estado. Alcançou a marca de 27,5 milhões de pessoas, alta de 1% em relação a igual período de 2018 (27,2 milhões).

– À medida que a economia se recupera, os primeiros empregos a reagir são os mais flexíveis. Novas modalidades, como a de trabalho intermitente (sem jornada e salário fixos), permitem isso. A tecnologia também tem impacto, com o surgimento de vagas como as de motoristas de aplicativos – ressalta o economista Guilherme Stein, professor da Unisinos.

Expectativa de retomada

O otimismo com eventual aceleração da economia brasileira em 2020 encontra respaldo em sinais de melhora em setores intensivos em mão de obra. Entre eles, o comércio e a construção civil, que tendem a ser beneficiados pelo juro básico no menor nível histórico do país – hoje em 4,5% ao ano. Assim, a expectativa de analistas é de que o Rio Grande do Sul pegue carona no desempenho positivo, com avanço na geração de empregos.

– O mercado de trabalho tem cenário mais alentador neste ano – afirma o economista-chefe da CDL Porto Alegre, Oscar Frank.

Mas analistas salientam que também há riscos no horizonte, especialmente no cenário internacional. Fatores como crise na Argentina, guerra comercial entre EUA e China e turbulência entre americanos e iranianos desafiam a retomada brasileira.

Professor da Unisinos, o economista Guilherme Stein avalia que o Brasil precisa de novos avanços na agenda de reformas para crescer mais e, consequentemente, gerar novos empregos.

O que é

O grupo de trabalhadores subutilizados é formado por três categorias

Desocupados: trabalhadores que procuram, mas seguem sem encontrar emprego (formal ou informal). São popularmente conhecidos como desempregados.

Subocupados por insuficiência de horas: pessoas que trabalham habitualmente menos de 40 horas semanais. Por exemplo: quem exerce “bicos” de maneira esporádica.

Força de trabalho potencial: pessoas que chegaram a buscar empregos, mas não estavam disponíveis para trabalhar por motivos diversos, além de pessoas desalentadas que desistiram de procurar vagas, mas estavam interessadas em ocupá-las.

Fonte: Jornal Zero Hora e Site GAÚCHAZH