Os programas do governo voltados para os negócios: análise geral

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JULHO, 2020

Notícias

Recentemente, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) ampliou o escopo das suas sondagens periódicas junto aos agentes econômicos. Agora, é possível avaliar, a partir das estatísticas preliminares levantadas até o dia 22 de junho, a utilização das medidas federais de atenuação da crise do novo coronavírus sobre as firmas, com base nas respostas de empresários de todo o Brasil.

Em primeiro lugar, uma parcela significativa dos entrevistados tentou acessar algum dos benefícios oferecidos, sobretudo nos serviços (67,6%) e na indústria de transformação (67,3%). Por sua vez, o comércio veio bem abaixo desses dois segmentos (43,6%). Parte da explicação reside em hiper e supermercados: metade do ramo (50,5%) não achou as políticas vantajosas. Entendemos que esse resultado está atrelado ao fato de que diversos dos bens comercializados são essenciais para a sobrevivência / conforto humano, além de que o peso dessa subcategoria é relevante na composição do varejo (representou 20,3% da receita bruta de revenda total em 2018, de acordo com o IBGE).

O exame dos dados mostra grande dicotomia entre as diferentes modalidades de apoio: as prerrogativas de redução da carga horária / suspensão do contrato de trabalho e de diferimento (atraso) no pagamento de impostos foram mais usadas do que as linhas de crédito. Trata-se, portanto, de uma clara evidência a respeito dos gargalos existentes que impedem o barateamento dos recursos na ponta.

A principal finalidade dos empréstimos diz respeito ao capital de giro, independentemente do setor. Aqui, houve um problema com relação ao timing das alternativas propostas pela União, uma vez que ações específicas para esse fim demoraram a surgir, como o PRONAMPE. Por outro lado, percebe-se a diminuição da busca pelo aumento das instalações / produção, em um contexto de severa contração da renda. Chama a atenção que o comércio visou também a renegociação / refinanciamento de dívidas (38,3%) e a manutenção / expansão o quadro de funcionários (34,7%).

Entre as maiores dificuldades apontadas no processo, tanto para os que lograram êxito quanto para os que não conseguiram, estão a burocracia e as taxas de juros elevadas. Vemos, nesse caso, a materialização das questões que barram o avanço sustentado das operações: (1) pequena taxa de poupança; (2) concentração bancária superior a 80% dos ativos em apenas 5 instituições financeiras; e (3) ineficácia da recuperação de garantias.

Em suma, apesar da queda da SELIC, do corte dos depósitos compulsórios, da criação de novos instrumentos de captação de dinheiro e de outras medidas do Banco Central desde o início do surto da COVID-19, o vetor do crédito continua travado. Esse estrangulamento decorre das ineficiências estruturais nesse mercado, que atravessa um momento de seletividade na concessão diante do incremento da probabilidade de inadimplência.

*Conteúdo exclusivo – Oscar Frank, economista-chefe da CDL POA

 

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