Aumento da SELIC, acima do esperado, confirma ciclo de alta nos juros

Conforme divulgado ontem em comunicado oficial, o Banco Central – através do Comitê de Política Monetária (COPOM) – decidiu aumentar a taxa básica de juros em 0,5 p.p. de forma unânime, elevando a SELIC para 8% a.a. O comunicado aponta que a “decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano”. Esse é o segundo aumento consecutivo da taxa de juros, configurando um novo ciclo de aumentos por parte da instituição.

Ao contrário do que ocorreu na última reunião, quando as expectativas do mercado e das instituições com mais acertos em suas previsões (Top 5) eram diferentes, desta vez ambas medidas apontavam para um aumento de 0,25 p.p. Entretanto, o Banco Central optou por acelerar a velocidade do ciclo de ajustes com um aumento maior.

A ata da reunião do COPOM, a ser divulgada em dia 06/06, poderá trazer mais detalhes sobre essa decisão, especialmente quanto ao tempo de duração do novo ciclo.

De acordo com o último relatório FOCUS as expectativas do mercado apontam para uma taxa SELIC de 8,25% a.a. ao final de 2013. Entretanto, após a decisão de hoje, o fraco desempenho do PIB e a resistência da inflação essas projeções podem se alterar.

As expectativas de inflação deterioraram em relação à última reunião, e apontam que a inflação deve fechar o ano em 5,82%.(em % a.a. – final de período; em var % acumulada em 12 meses, respectivamente)

Fonte: Banco Central do BrasilElaboração: AE/CDL POA.

(SELIC em % a.a., IPCA var. % acum. 12 meses)

Fonte: Banco Central do BrasilElaboração: AE/CDL POA.

Considerações da Assessoria Econômica

A opção por um ciclo de aumentos e em velocidade mais rápida é resultado da evolução recente da inflação, que se mantém acima da meta oficial de 4,5%, a despeito do compromisso assumido pelo Banco Central em fazê-la convergir para o centro da meta. Conforme o gráfico acima, a inflação acumulada em 12 meses em abril foi de 6,49%.

Tal cenário não seria preocupante se fosse um efeito localizado, resultante de aumentos nos preços de alguns bens. O gráfico abaixo mostra não ser essa a situação atual.

A linha mais escura é o Índice de inflação completo, enquanto a linha mais clara (verde) é o chamado Núcleo de Inflação – que nada mais é que o índice cheio descontados os itens que mais variaram a cada mês.

Quando tanto o Índice cheio quanto o Núcleo evoluem em conjunto é porque o comportamento da inflação é resultado de aumento nos preços da maioria dos produtos, e não apenas em alguns poucos em função de situações passageiras, como quebras de safra agrícolas.

Esse é o cenário que podemos identificar no gráfico abaixo. Conforme as projeções de algumas instituições financeiras seria necessária uma taxa de juros perto de 10% a.a. para trazer a inflação para perto da meta ao fim do ano, um cenário que não parece ser provável nesse momento.

Assim, o Banco Central parece trabalhar com uma meta de inflação alternativa, porém sem deixar claro qual seria essa meta. Esse é um ponto preocupante pois:

  • quando os agentes não sabem qual é a meta de inflação eles tomam suas decisões para proteger seus ganhos: salários, margens de lucro, receitas, etc.
  • essa situação pode ser identificada quando as expectativas de inflação se mantém constantemente acima da meta, como é o caso hoje: 5,82% para o final do ano;
  • isso se traduzirá em aumento nos custos de produção para as empresas, uma vez que expectativas de inflação mais alta serão incorporadas às negociações salariais.

Com salários crescentes mas com a produtividade média por trabalhador não sendo capaz de acompanhar esses movimentos, os custos crescem e reduzem as margens, ou acabam sendo repassados aos consumidores. Com isso, a atividade econômica pode acabar desaquecendo.

Nesse caso, o resultado é que ao ter retardado o aumento dos juros pensando em manter a atividade econômica o Banco Central apenas trocou mais inflação ontem por mais inflação hoje e amanhã, sem ter obtido ganhos em crescimento do PIB. Além disso, o custo de trazer a inflação para a meta se torna cada vez maior, enquanto mais tempo passar até que isso ocorra.(em var % acumulada em 12 meses, respectivamente)

Fonte: Banco Central do BrasilElaboração: AE/CDL POA.

Assessoria Econômica
Gabriel P. Torres – Economista
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Data

29 maio 2013

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